Esta história aconteceu de verdade há muito tempo, quando Londrina ainda era a promessa de uma grande cidade.
Zezito era fiscal de rendas, trabalhava para o governo, tinha um bom salário e um bom carro uma perua Aero Willys novinha, luxo necessário para percorrer as estradas de terra cheias de buracos que cortavam todo o Norte velho.
Numa das viagens, Zezito parou para almoçar em Londrina. Estacionou a perua na frente de uma pensão e nem se incomodou em trancar o carro: ''Naquela época a gente não trancava nem a casa.'' Comeu o tradicional, arroz com feijão, linguiça e salada de tomate.
Ao sair apressado tinha compromisso com hora marcada em Jataizinho notou que alguém tinha estacionado uma outra perua igualzinha exatamente ao lado da dele. Uma última olhada para o relógio, deu a partida, enfiou o pé no acelerador e ganhou a estrada.
Minutos mais tarde um outro carro também uma perua Aero Willys passa por ele. O motorista faz sinais e grita alguma coisa que Zezito não consegue ouvir. Dono de um gênio difícil e de pavio curto, Zezito logo fica indignado: ''Além de me ultrapassar o sujeito ainda teve a pachorra de falar algum palavrão, com certeza.''
Foi o começo de uma disputa que durou mais de meia hora. Zezito acelerava e ultrapassava a perua, só para perder a posição na próxima curva e lá vinham mais sinais e mais '' xingamentos'' do outro motorista. Quanto mais o outro acelerava, mais enfezado ficava Zezito: ''Nunca fui homem de levar desaforo prá casa.'' Ao ficar novamente para trás, engolindo poeira que não acabava mais, Zezito'' carcou'' o pé no acelerador, arriscou uma ultrapassagem perigosa, pelo lado direito da pista: ''Subi num baita dum barranco mas consegui voltar para a estrada e deixei o infeliz bem prá trás.''
Aliviado, Zezito espiou pelo retrovisor: nada do outro carro. Pensou em acender um cigarro mas não se deu ao trabalho era tanta poeira que nem carecia fazer mais fumaça! De repente, barulho de buzina. Zezito não acreditou lá vinha a outra perua atrás dele novamente. O motorista tinha enlouquecido de vez, disparou a buzina e ''voava'' pela estrada aterrissando com um soco cada vez que o carro passava em mais um buraco.
Era demais! Decidido, Zezito encostou na beira da estrada, desligou o motor. Desceu do carro, arregaçou as mangas, respirou fundo e se plantou no meio da poeira, esperando pelo outro. Se era prá brigar, melhor que fosse logo. O carro de trás parou do lado. O motorista desceu. A cara vermelha, suada, o chapéu fora de lugar. Para surpresa de Zezito, o sujeito propôs: ''Vamos trocar de carro? O senhor não percebeu, mas cometeu um engano quando saiu da pousada; essa perua que o senhor veio dirigindo até aqui é a minha''.

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