Narcóticos Anônimos ajudam dependentes
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de maio de 2005
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Três quartos de motel para três histórias de ex-usuários abandonadas na beira da cama ao lado das drogas, abrem as suas portas nesta matéria, deixando ver as relações de prazer e dependência - quase que sadomasoquista - de drogados com entorpecentes. Hoje, são testemunhos importantes de recuparação que podem ajudar outras pessoas entre as quatro paredes dos Narcóticos Anônimos (NA), uma irmandade sem fins lucrativos, disposta a mostrar o perigo de ter a droga como amante.
No quarto número 1, Joaquim (os nomes são fictícios) está deitado na cama ao lado de uma prostituta.
''Eu levei ela para o quarto de motel. Eu gostava da noite e tinha medo que as pessoas soubessem que eu usava droga. Comprava o entorpecente, levava a prostituta para o motel mas nem dava trabalho para ela. Pagava para ter alguém comigo. Tive até momentos de questionar a minha opção sexual. O meu primeiro contato foi com álcool aos 14 anos. Depois veio a cocaína. Me apaixonei por ela'', lastima.
A chave da porta do quarto 2 abre a história de José. O rapaz costumava ir sozinho ao motel para poder se isolar da sociedade e consumir entorpecentes.
''Muitas vezes, o drogadicto escolhe ficar sozinho. Porém, não está só, mas com a droga, a melhor amiga dele. É um caso de amor'', lembra o rapaz.
Vinte e seis de setembro de 1996, quarto número 3. João usa droga pela última vez. Ele chegou a ter conta no motel para se drogar sozinho.
''Ficava cada vez mais difícil conseguir a droga. Acabei fazendo pequenos aviões, me envolvendo com o tráfico, vivendo no submundo para conseguir entorpecente e aquele primeiro prazer que senti. O primeiro prazer nunca mais volta. Fui preso três vezes por vício e porte. Em um mês fui preso duas vezes. A polícia me via na rua e já me parava. Os amigos que consumiam começaram a se afastar. Eu já era visto como chave de cadeia, queimando o filme dos outros. Então ia para o motel sozinho''.
Os três rapazes conseguiram escapar dos quartos escuros, onde o envolvimento com entorpecentes os mantinha cativos. Porém, a porta para as drogas pode ser aberta a qualquer momento. Para mantê-la fechada, eles preferem se considerar em recuperação, contando com a ajuda do NA. O desejo de parar de consumir a droga substitui a fissura, empurrado pelo lema ''só por hoje''.
Noutro rolê pelas três histórias derrapamos no Carnaval de 2002. Joaquim pede que alguém compre cocaína para ele - a ''paixão'' nasceu do primeiro contato.
''Era estudante do segundo grau. A droga foi uma forma que encontrei de passar a madrugada estudando. Já como universitário, o uso passou a ser diário. Perdi o controle. O que a droga acabou me dando - o sonho de poder estudar - ela me tirou. Fiquei três anos parado no primeiro ano'', comentou Joaquim, que encontrou o NA depois de passar por psiquiatras, psicólogos e internações, contando que está há dois anos e seis meses limpo.
O NA é um dos ramos da árvore Alcoólicos Anônimos (AA), que cresceu a partir do final da década de 40 em Los Angeles, Califórnia (EUA). Narcóticos têm grupos em quase toda Europa Ocidental, nas Américas, Austrália, Nova Zelândia, Paquistão, Sirilanka, Afeganistão, Bangladesh, num total de 106 países.
Como curiosidade podemos dizer que são realizadas 30.303 reuniões por semana em 19.742 grupos no mundo, que falam 47 idiomas.
Três grupos desses estão em Londrina, com uma frequência média de 20 participantes, que caminham sobre os 12 passos, princípios que acreditam levar à abstinência. O primeiro deles é reconhecer-se impotente à adicção e que perdeu o domínio da vida.
''Além do atendimento também fazemos visitas à instituições carcerárias. Isso tudo está dentro dos nossos 12 passos e 12 tradições'', explica José, que conheceu o trabalho do NA, através de uma instituição em que esteve internado, depois de usar droga dos 12 aos 19 anos de idade. Atualmente, o rapaz tem 28 anos.
''Toda história com droga começa na época mais marcante da vida. Digo que foi na fase melhor da minha vida. Hoje em dia digo que estou na época mais feliz da vida. O grande barato do NA é o incentivo que um dá para o outro. Agora tenho conseguido realizar os meus sonhos. Não conseguia terminar o segundo grau. Sempre chegava no meio e parava. A perda maior foi a da família pela falta de confiança e credibilidade, mas consegui tê-las de volta'', lembra José.
João começou a usar droga aos 12 anos de idade em 1988. Ele diz que ouvia falar que a droga matava, mas ninguém lhe contou que dava prazer. Mas ela ''ensina'' também a mentir por qualquer motivo. No NA aprendeu a ouvir que era uma pessoa importante.
''No começo, quando chegava 18 horas, horário em que saia para me drogar, era o momento mais difícil. Então passei a assistir novela nesse horário para me distrair. Tanto que fiquei viciado em novelas (sorri, brincando), mas adquiri confiança, a minha família de volta, espaço dentro de casa. Minha mãe me deu, inicialmente, a beirinha da cadeira dela. A partir dessa confiança, conquistei a minha cadeira dentro de casa'', ilustra João, com a chave na mão, que mantém trancada a porta para um novo namoro com as drogas.


