Cidade com um dos maiores índices de verticalização do mundo, com mais de mil prédios, sendo mais da metade no Centro, Londrina ainda possui residências antigas que resistem à ocupação de grandes edifícios e estabelecimentos comerciais. Na Rua Souza Naves, uma das mais movimentadas e caras de Londrina, resiste um sobrado de alvenaria, construído no final da década de 1950. Segundo Angelina Inocente Figueiredo, a casa, construída por Edgar Pietrarroia, foi inaugurada pelo sogro, o médico pioneiro José Octaviano de Figueiredo, no dia 29 de setembro de 1956. Espaçosa, a casa possui 12 cômodos e já chegou a ter duas cozinhas. ''O sobrado foi construído com dois tipos de tijolos, os pisos e fachadas são originais. O material é nobre'', afirma Angelina.
Além dos azulejos amarelos, afrescos no beiral, pisos de tacos de madeira, a casa abriga relíquias de quatro décadas como uma pá e uma escova de limpar mesa em prata - ''presente de casamento da sogra'', conta Angelina, lustres de cristal, relógio de parede e imensos armários de madeira com espelho na porta. A moradora ressalta que a residência sofreu poucas intervenções ao longo dos anos. ''Um pequeno jardim no corredor deu lugar à escadaria e no banheiro foram retirados a banheira e o piso em mármore'', conta. No sobrado, relembra Angelina, já residiram oito pessoas, mas atualmente além dela, uma cunhada e uma neta moram lá. A maioria dos cômodos é utilizada como depósito dos materiais utilizados pelo filho decorador.
De um tempo em que as ruas ''eram só mato'', as famílias possuiam criações e os vizinhos trocavam um dedo de prosa em frente ao portão no final da tarde, Angelina só lamenta a insegurança. ''A casa já foi assaltada três vezes. Em uma delas foi por Deus que eu estava dormindo e não topei com os ladrões, porque sou de enfrentar'', comenta. Mesmo assim, a moradora resiste. ''Não vendo, não troco, não dou. Já me acostumei aqui. A casa é espaçosa e a localização privilegiada'', argumenta.
Na Rua Goiás, em meio a edifícios e os mais diferentes estabelecimentos comerciais (sapataria, salão de beleza, restaurante), uma casa de madeira com fachada rosa ostentando no jardim uma imensa araucária chama a atenção. Ali reside desde 1945 a catarinense descendente de alemães e poloneses Hildegardt Sobotta, 84 anos. A moradora lembra que um amigo alemão vendeu a casa para o pai. ''Aqui é tudo peroba'', orgulha-se. No imóvel de cinco quartos já moraram a mãe, o marido e quatro filhos.
Hoje, Hildegardt mora sozinha, mas faz questão de reunir os filhos e netos para o almoço uma vez na semana. As grandes companheiras são as plantas, para as quais a moradora dedica as mãos e o afeto. ''Adoro ficar aqui nos fundos ''lidando''. Gosto de terra e criação'', entrega, apontando a variedade de árvores frutíferas no quintal - abacateiro, mangueira, pessegueiro, jabuticabeira, coqueiro. No jardim, orgulha-se da araucária que plantou há 42 anos. Assim como o lar, a moradora também resiste à mudança. ''Já rejeitei várias ofertas de compra; esta casa não tem preço. Daqui só para o cemitério'', garante.

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