Não temos para aonde ir, diz brasiguaia
Não temos para aonde ir. Terão que nos levar de volta ao Paraguai, de onde fugimos para ter alguma coisa, reclamava uma sem-terra que não quis se identificar, ontem, durante a desocupação da fazenda Nossa Senhora Aparecida. Ela disse preferir ser presa com o marido, Porfírio João Machado, e os seis filhos a ser levada sozinha para um local onde não teria como sobreviver. Esta era a única família de brasiguaios - brasileiros que foram trabalhar na agricultura no Paraguai - no acampamento.
Outras mulheres também mostravam descontentamento com a situação. Uma delas dizia que as pessoas foram ingênuas e falaram demais para a imprensa. Por isso estamos sendo retirados dessa forma daqui, desabafou. Já os homens que ficaram no acampamento estavam receosos do local onde seriam deixados pela PM. Havia dúvidas se a polícia realmente os levaria para a região sudoeste.
Não temos certeza de que vão nos deixar no sudoeste. Eles devem nos deixar na beira do asfalto, com as lonas rasgadas. Se for preciso, irei acampar na prefeitura de Realeza para não passar fome, anunciou, preferindo também não se identificar.
Enquanto os adultos recolhiam seus objetos, as crianças, alheias a tudo, brincavam entre os objetos. Algumas reclamavam de fome e pediam leite. As mães simplesmente diziam que não tinham como alimentá-las e mostravam mamadeiras vazias. Só vão comer na hora que o ônibus parar, dizia uma sem-terra. Somente uma criança, com 40 dias de vida, tinha uma mamadeira de leite.
Todos reclamavam da falta de emprego e das dificuldades nos municípios de origem. Desnorteados, não sabiam a quem recorrer em Realeza e Santa Isabel do Oeste. (Alexandre Sanches)





