Não saber ler e escrever, para mim, é como ser cego
A empregada doméstica Gedalva Guilherme dos Santos - conhecida como Dona Dalva - sempre quis, mas nunca conseguiu aprender a ler e a escrever. Nascida na cidade de Capela, no estado do Sergipe, meio século atrás, ela perdeu a última oportunidade de estudar quando a mãe morreu. Na época, com apenas oito anos de idade, a garota teve que ajudar o pai a cuidar dos irmãos e também da casa. A única coisa que ele não pôde dar para gente foi o estudo. No mais, deu tudo. Foi, ao mesmo tempo, mãe e pai para a gente.
O pai de dona Dalva trabalhava como colono, em fazendas. A família chegou ao Paraná em 1959. Passava de uma fazenda para outra, sempre a procura de melhores oportunidades de emprego. A vida quase nômade desestimulava o compromisso com a escola. Alguns anos depois veio o casamento, os filhos - seis, no total -, e a mudança para Londrina, há exatamente 21 anos. Depois de tanto vai-e-vem, o estudo acabou ficando mesmo para segundo plano. Na verdade, eu sempre quis estudar, queria voltar para escola, o que iria facilitar bastante a minha vida. Mas até agora não deu, lamenta.
A falta de escola acabou gerando uma variedade incalculável de vazios e desconfortos na vida da doméstica. Outro problema sério, causado pelo analfabetismo: sem orientação, ela acabou não sendo registrada no Instituto Nacional de Previdência Social (INPS). Trabalho desde os 10 anos, mas acho que não vou conseguir me aposentar, lamenta.
Para suprir o estudo, no entanto, dona Dalva acabou desenvolvendo uma memória invejável: ela é capaz de lembrar de praticamente todos os lugares que já passou, detalhes arquitetônicos e, principalmente, datas. Sem contar um ótimo senso de orientação. Isso facilitou inclusive as constantes viagens que ela gosta de fazer - para o interior de São Paulo, por exemplo, onde ainda vive o pai; ou para Sergipe, nas casas de familiares.
Vou pelo número que está na passagem, informando a plataforma, e também pelo emblema da empresa de ônibus. Número eu conheço e, na dúvida, pergunto. Além do mais, se vou para um lugar uma vez, nas outras vezes já sei para onde devo seguir, explica. Ninguém me passa para trás. Dona Dalva dá um exemplo de boa memória: alguns anos atrás resolveu visitar o túmulo da mãe, em Presidente Prudente (SP), depois de 40 anos. Chegou ao cemitério, lembrou do número do túmulo, e achou. Tinha oito anos quando meu pai explicou e disse qual era o número. Não esqueci mais.
Mas o forte mesmo de dona Dalva são as datas. Tem parente que ainda hoje liga para ela quando tem dúvida no aniversário ou em alguma data importante na vida de alguém. E ela recorda não só do dia do mês como também do dia da semana que aconteceu determinado fato.
No último dia 28 de setembro, por exemplo, dona Dalva destaca que o Brasil comemorou em silêncio o aniversário de seis anos de um dos momentos mais importantes da história contemporânea: a renúncia do presidente Fernando Collor, motivada pelo processo de impeachment. E mais: no último dia 13 de outubro, foram também seis anos da morte do deputado federal Ulysses Guimarães, num acidente de helicóptero no Rio de Janeiro.
A esperança de dona Dalva, agora, é que a memória rara contribua nos estudos - ela pretende começar a estudar o mais rápido possível. A doméstica estima que até no próximo ano, no máximo, já esteja dividindo o tempo entre a casa, o serviço, e os bancos escolares. Assim, vai poder recuperar o tempo perdido. Não saber ler, para mim, é como ser cego. Por isso insisto com meus filhos que nunca deixem de estudar, para que não tenham a dificuldade que eu tenho. Mas acredito também que ainda vou ler e escrever. Tenho confiança que um dia ainda vou conseguir.Josoé de CarvalhoGratidãoDona Dalva: A única coisa que nosso pai não deu para gente foi estudo. Ele foi ao mesmo tempo pai e mãeLúcio Horta





