'Não quero meu neto fazendo 'bicos''
O desfecho de algumas histórias vividas por crianças londrinenses que engrossam os números do trabalho infantil demonstra que o resgate depende das oportunidades. Leonardo Diego, o garoto que vendia flores no cemitério, deixou o serviço depois que passou a frequentar o projeto Galera de Deus, que atende crianças em situação de risco na Zona Leste de Londrina. Incentivado pelos voluntários, o menino, que gosta de matemática, voltou à escola e hoje, aos 13 anos, sonha em ser ''um grande administrador de empresas.''
A reviravolta na vida de Léo encheu de alegria a avó, Maria de Lourdes de Lima, que levava o neto ao cemitério por medo de deixá-lo sozinho em casa. ''O dinheiro que ele ganhava era pouco e acaba não fazendo falta. O importante é que ele estude para ter um emprego. Não quero meu neto fazendo 'bicos' pelo resto da vida'', disse.
Em um bairro próximo, Tamara, 12, e Cléberson, 11, também foram salvos da obrigação de garantir renda à família pela colocação do irmão mais velho, Vilmar, 20, no mercado de trabalho formal. Filhos de Claudete Maria de Lima, eles chegaram a pedir dinheiro na rua quando a mãe enfrentou problemas renais e passou uma temporada no hospital. ''Meus filhos ficaram espalhados pela casa dos outros'', contou.
Nessa época, Tamara e Cléberson foram acolhidos por uma amiga da mãe que os levava para pedir dinheiro nas casas. ''A gente dava o que ganhava para minha mãe pegar ônibus e fazer hemodiálise'', contaram. Claudete, impotente diante da situação, contou que sentia muita vergonha. ''As pessoas falavam que pedir é melhor que roubar, mas eu ficava preocupada, achando que o Conselho Tutelar levaria os dois.''
As crianças pararam de mendigar quando a mãe passou a receber a pensão do ex-marido e o filho mais velho, empregado em um supermercado, voltou para casa e passou a ajudar no sustento dos mais novos. Dos tempos em que iam com a amiga da família bater na porta das casas, Tamara e Cléberson não têm boas lembranças. ''Muita gente xingava, tratava mal. Eu me sentia magoada'', contou a menina. (C.A.)





