Não há sol no fim da estrada
Dorico da SilvaNÃO HÁ SOL NO FIM DA ESTRADA
Há 500 anos os meninos seguem a mesma estrada. Às vezes montados no jegue, às vezes a pé, às vezes correndo da polícia que invade os acampamentos. Aspecto moralmente mais problemático para os donos do poder, eles são pequenos mas, no fim das contas, não deixam de ser parte da questão social. Portanto, não deixam também de ser caso de polícia aos olhos dominantes. Tudo porque moram - ou um dia moraram - debaixo de lonas pretas. Outro dia quiseram boicotar o padeiro que estava vendendo pão a eles. Há 500 anos os donos da parada agem assim com os meninos montados no jegue: tiram o pão da boca deles. Exatamente o oposto do que um judeu rebelde recomendou há 2 mil anos. Ele também foi perseguido, sua mãe também fugiu montada. Aqui, como antes, há fuga. E já temos meio milênio de perseguições. Não há luz no fim do túnel, não há Sol no fim da estrada. Homens armados e encapuzados são convocados pelos quatro cantos, para que os meninos fujam de novo pelo caminho incerto, cujo destino final pode ser a favela, o crime, a chibata urbana. Em cima do jegue ou em cima de um caminhão - sempre escorraçados. Em nome da santa propriedade. Faz 500 anos. Não há luz no fim do túnel, não há Sol no fim da estrada. Mas eles avançam. A pé ou de jegue.
(Paulo Briguet)





