Enquanto muita gente gasta a sola dos sapatos procurando emprego, sobram vagas para a profissão de açougueiro em Londrina. ''Infelizmente, essa profissão não é reconhecida. E olha que cortar bife qualquer um faz, mas pegar um pedaço de carne, dar os cortes corretos, aproveitando a carne sem deixar sobras, isso é difícil'', defende o açougueiro Paulo Cesár Silva, 29 anos, há 15 na profissão.
Ele trabalha em uma casa de carnes na Zona Sul de Londrina e garante gostar da profissão a ponto de não trocá-la por outro emprego. ''Já passei no vestibular para Educação Física, já tive oportunidade de trabalhar em hotel, mas não quis deixar o açougue. Eu gosto de trabalhar com carne. Você sabe que uma picanha, a carne mais macia do boi, pode ficar dura se não for bem cuidada? É isso que eu gosto de fazer''.
Já acostumado com o sangue e o cheiro forte da carne - aprendeu a profissão observando açougueiros mais experientes -, Silva é o típico profissional que não fica sem emprego. ''Aqui em Londrina um bom açougueiro não fica sem trabalho. O duro é ter que treinar os novos; você tem que pagar para eles trabalharem e ainda ensinar a profissão correndo o risco de perder carne'', afirma o gerente de Silva, André Magro.
No ramo também há 15 anos, hoje ele gerencia uma das duas lojas da família, que totalizam dez açougues. ''Às vezes é difícil conseguir gente para trabalhar que saiba manusear carnes''. Situação semelhante passou uma rede de supermercados que vai inaugurar uma loja em Londrina. ''Eles precisavam de 30 pessoas para açougue, confeitaria e padaria e não conseguiram nem metade. Não tem gente qualificada para isso'', analisa o responsável pela Agência do Trabalhador na cidade, Roberto Gonçalves.
Em função dessa dificuldade, um curso profissionalizante para açougueiro, padeiro e confeiteiro está sendo preparado. ''Estamos acertando os últimos ajustes e devemos abrir as vagas em breve. Vamos informar a população aqui na agência e também através da imprensa. Precisamos ainda ver também como vamos selecionar as pessoas para fazer o curso'', ressalta Gonçalves.
Na fila da Agência do Trabalhador, à espera de uma vaga, Jefferson dos Santos, 22 anos, garante que aceitaria trabalhar como açougueiro, o problema é, de fato, a falta de experiência. ''Oportunidade a gente não pode perder, a questão é que não tenho habilidade. Precisaria fazer um curso''. O mesmo responde Lucas Lopes Balbinotti, 18 anos. ''Só trabalhei de entregador de revistas até agora''.
Enquanto esperava ser atendido, ele e a mãe, Jucilene Carvalho Lopes, 38 anos, - que também está desempregada - asseguraram que enfrentariam o desafio. ''Eu sou dona-de-casa há tanto tempo que acredito que tenho habilidade para a função de açougueira, mas não experiência em carteira. Já tentei vaga de cozinheira ou auxiliar de cozinha, apesar de ser formada no curso técnico de enfermagem, mas nunca consigo a vaga por não ter trabalhado na área''.
Apesar de concordar com a dificuldade em encontrar profissionais qualificados, o açougueiro Paulo Silva parece se preocupar com cursos de formação e a contratação de pessoas inexperientes. ''O profissional tem que aprender na prática. Difícil saber cortar carne só estudando. O problema é que existem lugares que contratam rapazes novos, pagam menos e a profissão vai se perdendo. Acho ainda que os novos têm que aprender com quem já está na profissão''.

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