'Não estou em condições de ficar sozinha'
Uma sequência de grandes perdas, somada à resistência em procurar ajuda profissional, levou Lurdes (nome fictício), de 48 anos, à dependência do álcool. ''Primeiro eu perdi meu pai, a quem era muito apegada. Três anos depois meu marido morreu atropelado na porta de casa, me deixando sozinha com cinco filhos (quatro deles menores de idade) e sem direito a pensão. Logo depois, veio a morte da minha mãe. Foi tragédia atrás de tragédia e, quando vi, já estava na bebida.'' Lurdes é atendida no Centro de Atenção Psicossocial/Álcool e Drogas (Caps/AD) desde 2003, e as recaídas acontecem toda vez que resolve parar de tomar os medicamentos controlados.
Sem os remédios, porém, o pesadelo recomeça. A dificuldade em externalizar os sentimentos, por exemplo, é potencializada. ''Não consigo nem conversar com meus filhos, eles sofrem muito quando estou bebendo. O álcool me prejudica em tudo'', resume, com lágrimas nos olhos. A última recaída foi no final do ano passado. Atualmente tenta manter-se sóbria, enquanto se recupera de um tombo, em que machucou joelho e coluna.
As atividades desenvolvidas no Caps são determinantes para o necessário distanciamento da bebida. ''Aqui eu converso, aprendo artesanato, culinária, me distraio. Em casa, eu fico sozinha, e não estou em condições de ficar sozinha'', admite.
A psicóloga Ana Carolina de Paulo Athayde, coordenadora do Caps/AD, observa que Lurdes corresponde ao perfil mais comum entre as mulheres que são dependentes apenas do álcool. ''São as mulheres mais maduras. Entre as mais novas, é comum o uso de outras drogas também, que elas usam quando estão sob efeito do álcool. Elas sempre dizem que seria mais fácil controlar o vício se não fosse a bebida.''
Segundo a coordenadora, o Caps/AD atende uma média de 60 a 80 pessoas por dia. Destas, 80% são homens, mas a participação feminina nas estatísticas cresce a cada ano. ''Tanto que o Conselho Municipal de Álcool e Drogas já estuda a possibilidade de proporcionar o atendimento de mulheres em comunidades terapêuticas, que hoje não é ofertado'', informa. O atendimento nas unidades do Caps é feito por equipes multidisciplinares, compostas por psicólogos, terapeutas ocupacionais, sociólogos, professores de educação física, assistentes sociais, enfermeiros e médicos. (S.L.)
SERVIÇO
Mais informações sobre o atendimento no Caps/AD pelo fone (43) 3379-0877





