A ciência conseguiu esticar a expectativa de vida das pessoas, mas não logrou o mesmo êxito em garantir qualidade para os anos conquistados. Partindo dessa constatação - facilmente comprovável com os altos índices de doenças crônicas e incapacidade física na terceira idade - o 3º Fórum Paranaense do Idoso, realizado pela primeira vez em Londrina, discutiu ontem como a sociedade, o poder público e os próprios idosos podem garantir envelhecimento com qualidade de vida.
Atualmente, apenas 50% dos idosos brasileiros têm habilidade para um ato tão corriqueiro como fazer compras. Um em cada cinco tem incontinência urinária. Quase um terço tem pelo menos uma doença crônica. E 30% dos indivíduos com mais de 80 anos sofrem de Alzheimer.
Embora assustadores, os dados apresentados no Fórum pelo geriatra e professor do curso de Medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Marcos Cabrera, não tinham como objetivo deixar ninguém com mais medo de envelhecer. Pelo contrário: a idéia era alertar para a necessidade de adotar hábitos saudáveis e assegurar um envelhecimento mais feliz que o das estatísticas.
''A genética só interfere 20% no envelhecimento. Os hábitos de vida, 50%'', alertou Cabrera, antes de listar as práticas que fazem toda a diferença: alimentação balanceada, livre de gorduras e excesso de doces; atividade física, principalmente musculação e alongamento no caso dos idosos; boas noites de sono sem auxílio de remédios; higiene bucal e atividades intelectuais.
São iniciativas que têm de partir, primeiro e principalmente, dos próprios indivíduos com apoio da família. Mas os governos podem contribuir para facilitá-las. ''Em Maringá, a prefeitura criou academias de terceira idade e disponibilizou musculação para idosos em praça pública. O Poder Público também pode criar mecanismos de força de trabalho para esse público e incentivar a alimentação saudável. Se investir nisso, vai gastar muito menos com assistência social e sa© úde'', atestou o geriatra.
Uma população de idosos mais saudáveis e, consequentemente, mais autônomos, também evitaria a superlotação de Instituições de Longa Permanência (ILPs) e a proliferação de asilos clandestinos. Na semana passada, mais um abrigo sem alvará de licença e em condições insalubres foi interditado pela Vigilância Sanitária em Londrina. Mais séria do que a irregularidade em si, é o abandono de idosos por parte das famílias que episódios como esse expõem.
Para Cabrera, as famílias precisam enxergar que existe potencial nos idosos, mesmo quandos eles adquirem incapacidade de memória ou locomoção, por exemplo. ''A gente acaba matando o indivíduo antes do tempo, sendo que ele está íntegro para outras coisas. A maioria dos idosos tem uma capacidade afetiva enorme. A gratidão, a sensibilidade, a capacidade de amar, aumentam com a idade. As famílias desperdiçam isso.''
E quando a família de um idoso incapacitado tem que trabalhar o dia todo e não tem dinheiro para contratar um cuidador? ''Podemos trabalhar a qualidade das instituições. O que se gasta hoje com Alzheimer, por exemplo, podia ser investido em hospitais-dia'', considerou Cabrera. Opinião semelhante teve o geriatra e coordenador do Fórum, João Batista de Lima Filho. ''Os ILPs, antigos asilos, são muitas vezes necessários para uma série de pessoas com vulnerabilidade física, mental, social, psicológica. Mas também precisamos dos centros-dia e dos cuidados paliativos para pessoas em fase final de certas doenças'', defendeu.
A secretária do Idoso de Londrina, Cristina Coelho, disse que o Município está estudando alternativas para a implantação de um centro-dia na cidade, sem a necessidade de construir um novo prédio. ''O Município não tem recurso para uma obra como essa e o serviço em si já é muito oneroso, exige especialistas de todas as áreas. Estamos verificando a possibilidade de readequar espaços'', explicou.
Cristina ressaltou que, conforme prega o Estatuto do Idoso, as quatro ILPs da cidade - cuja capacidade está no limite - só recebem idosos em ''último caso'', quando não há possibilidade de ficarem com a família. ''Temos incentivado a contratação de um cuidador familiar, uma pessoa que passe o dia com o idoso, dando toda atenção e carinho. A falta de recursos não é desculpa. Hoje é raro você encontrar um idoso que não receba um benefício do governo'', salientou.

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