Faz um mês que a empregada doméstica Roseli do Nascimento, 29 anos, dorme em média duas horas por noite, não tem horário para comer, nem para tomar banho, conversar com o marido, muito menos passear. Em compensação, vivencia uma das experiências mais ricas que uma mulher pode desejar. Ela deu à luz, no dia 23 de julho, a trigêmeos fecundados naturalmente, fato raro que só acontece uma vez a cada 10 mil partos. A data marcou uma reviravolta na vida de Roseli. ''Eu imaginava que ir ter trabalho, mas não tanto'', constata.
A pequena casa da família, na Vila Beatriz, em Ibiporã (14 km a leste de Londrina), dificilmente está em silêncio. Dia e noite, há sempre um chorinho no ar. E braços dispostos a acolher os seus donos. ''Qualquer barulhinho que eles fazem eu acordo. Morro de medo de um deles se sufocarem'', revela Roseli. O problema, diz, é o 'efeito dominó': um acorda, chora para chamar a atenção da mãe, e acaba acordando os outros. ''Eu vou andando em ponta de pé para não fazer barulho mas não tem jeito, quando chego perto sempre tem mais um acordado.''
Com a divulgação do nascimento dos bebês pela imprensa, a família ganhou roupinhas, fraldas e um pequeno estoque de leite. Mas as despesas da família - que já tinha uma filha de nove anos - tendem a aumentar, e Roseli, que ajudava a pagar as contas trabalhando em casa de família, teme pelas dificuldades que virão. ''Não sei quando vou conseguir voltar a trabalhar.'' Seu marido, Edson Pereira, de 29 anos, é lustrador de móveis, e a casa de cinco cômodos em que moram é alugada.
Além do desafio de dar conta sozinha das tarefas da casa e dos cuidados com os filhos (durante o dia ela conta apenas com o apoio da mãe, que sempre que pode vai até sua casa) Roseli enfrenta a difícil tarefa de levar os filhos ao médico. ''Para ir ao Posto de Saúde dependo da minha mãe e da minha filha poderem ir junto, já que não tenho um carrinho para trigemêos. Isso dificulta muito.'' Giovana, Rafael e Gabriel nasceram com 1,965 kg, 2,345 kg e 2,370 kg, respectivamente, e já ganharam de 300 a 400 gramas cada.
Como toda mãe, Roseli vive cheia de preocupações. A maior delas é a de não suportar tanto trabalho e deixar faltar algos aos filhos. ''De madrugada, quando eles choram, eu estou tão cansada que choro junto. Fico apavorada'', revela. Ela diz que só teve a noção exata do que seria sua vida a partir do nascimento dos trigêmeos em sua primeira noite em casa com os bebês. ''Nunca mais tive aquele sono profundo, de descansar mesmo.''
Mesmo com todo o cansaço, Roseli não perde o otimismo e a capacidade de se ver como uma pessoa abençoada. ''Tanta gente quer ter filhos e não consegue. De uma só vez eu tive três, todos perfeitos, foi um presente de Deus. E se Ele me deu este presente, é porque eu posso aguentar. Esse cansaço todo um dia vai passar'', argumenta. Roseli também se emociona ao falar das boas surpresas que tem tido a partir do nascimento dos filhos. ''Encontrei muita gente boa que está nos ajudando, fiz amigos que nem imaginava. Muita gente me liga para deixar uma palavra de conforto. Apesar das preocupações, não consigo mais ser uma pessoa triste.''

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