Se amanhã Tuca, Kuein, à e Tikuein do Mã morrerem, a memória da cultura xetá se extingue para sempre. Últimos sobreviventes de um processo de dizimação da raça, esses índios guardam na cabeça a essência de sua tribo. Quatro de oito xetás puros do Brasil, eles têm mais 43 descendentes, todos mestiços e aculturados, que sabem pouco da vida de seus ancestrais. ‘‘Mas vou viver 400 ou 500 anos, porque quero repassar para os xetás a nossa memória’’, avisa esperançoso Tuca, ou Tucanambá José Paraná.
Tuca afirma que seu povo quer contar o que manteve em silêncio durante 40 anos. ‘‘Fomos vítimas de um massacre’’, diz. Entre as décadas de 50 e 60, quase 400 índios xetás foram mortos durante o processo de colonização e expansão cafeeira no noroeste do Paraná, vítimas de doenças - trazidas pelos brancos -, envenenados ou baleados.
‘‘Todo este episódio foi mantido oculto, já que muitos dos autores estão ainda atuantes na política estadual e federal’’, avalia a etnóloga Carmen Lúcia Silva, pesquisadora de etnologia indígena do Museu de Arquelogia e Etnologia de Paranaguá.
O processo de colonização foi estimulado pelo governador Moisés Lupion e seguido por Bento Munhoz da Rocha. Na época, as terras que eram reservas índigenas foram reduzidas de mais de 115 mil hectares para cerca de 22 mil. Hoje, oito sobreviventes do processo de colonização possuem pequenos pedaços de terra em reservas de outras tribos ou vivem em cidades - como São Paulo, Xanxerê (SC) e as paranaenses São Jerônimo da Serra e Nova Tebas.
As terras dos xetás ficavam na região de Umuarama, abrangendo os municípios de Douradina e Icaraíma, todos perto da Serra de Dourados. Parte do território desses índios, que eram coletores e caçadores, estendia-se ainda para as cidades de Campo Mourão e Cruzeiro do Oeste.
A etnóloga conta que quando as empresas colonizadoras ocuparam essas terras passaram a colocar índios em caminhões e levavam para outras regiões ou estados. Alguns foram expostos em circos, outros tiveram seus filhos retirados da família, sendo criados por funcionários das colonizadoras ou pelo Serviço de Proteção dos Índios (SPI), antecessor da Funai.
Tiquen Xetá, hoje policial, foi retirado de sua mãe quando tinha 2 anos, sendo criado pelo atual administrador regional da Funai, João Rozo de Menezes. Vivendo em Nova Tebas, ele não acredita que a história de seu povo terminou. Ao contrário dos registros da Funai, que apontava o povo extinto, o policial aposta na força da voz xetá, que deverá provocar um reconhecimento futuro de sua cultura.

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