Na universidade, estudante indígena reafirma sua identidade
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sexta-feira, 02 de agosto de 2019
Simoni Saris - Grupo Folha 

Uerique Aparecido Gabriel Matias, 24, está no segundo ano do curso de educação física na UEL (Universidade Estadual de Londrina). Pertencente à etnia indígena guarani andeva, ele saiu da aldeia Pinhalzinho, em Tomazina (Norte Pioneiro), para fazer o ensino superior. O tio dele é formado em medicina veterinária pela UEL e a irmã estudou psicologia na Uenp (Universidade Estadual do Norte do Paraná). Fazer uma faculdade era um sonho para Matias. “A gente precisa de uma carta de anuência assinada pelo cacique para poder fazer o vestibular. Terminei o ensino médio em 2009 e em 2013 comecei a fazer o vestibular específico. Fui aprovado em 2017. Fiquei muito contente porque não esperava entrar em uma universidade, ainda mais na UEL, bem conceituada”, contou.
Durante o período em que ficou no Ciclo Intercultural de Iniciação Acadêmica dos Estudantes Indígenas, Matias teve contato com caingangues, uma etnia diferente da dele, com outros costumes, e pôde reafirmar sua identidade. “A gente tem um duplo pertencimento. Estamos na universidade, mas estamos ligados à nossa comunidade. A sociedade obriga a viver nos padrões que ela impõe e o Ciclo é a nossa casa, nossa terra indígena. Ali que tem união, fortalecimento e resistência. É um ponto estratégico. Na aldeia, a gente não reafirma o tempo todo que é indígena”, disse.
No curso de educação física, Matias encontrou colegas “de mente aberta” e teve muito acolhimento. Hoje, ele se sente totalmente integrado à turma a vive em uma república com três rapazes não indígenas. A convivência, diz o estudante, não poderia ser melhor. “Meus amigos nunca tinham tido contato com indígenas e foi muito legal porque me acolheram. O legal dos meninos que moram e estudam comigo é que reconhecem o valor do indígena na sociedade.”
Além da formação acadêmica que prepara para o futuro profissional, analisa Matias, na universidade os indígenas assumem o papel de protagonistas da sua própria história. “A universidade abriu outros horizontes para mim. Perto da aldeia são cidades pequenas, a gente não tem noção da amplitude do mundo. E a gente também tinha um certo preconceito porque não conhecia outras culturas. A universidade tem uma diversidade muito grande, com estudantes de outros países”, destacou. ”Se você pensar que na UEL entram dois mil estudantes por ano e seis indígenas, é muito pouco. Essa é uma luta nossa.”
O conhecimento adquirido durante a vida acadêmica, acredita Matias, também vai ser fundamental para levar adiante uma das principais bandeiras do povo indígena, a questão da demarcação de terras. “O conhecimento só vem agregar. A gente briga, mas a principal arma com a qual tem que lutar é com a caneta.”
DIFUSÃO CULTURAL

O desejo de produzir conteúdo cultural sobre as culturas indígenas levou Yago Junio dos Santos Queiroz, 24, a querer cursar a faculdade de jornalismo. Índigena da tribo fulni-ô, criado em uma aldeia caingangue, o estudante quer usar os conhecimentos adquiridos na universidade para difundir a cultura indígena brasileira de uma maneira consciente e sem deturpações. “Quando optei por jornalismo, a intenção era produzir cultura para desmistificar preconceitos, utilizando recursos audiovisuais”, contou Queiroz.
Em 2013, quando ingressou na UEL (Universidade Estadual de Londrina), ainda não havia o Ciclo Intercultural de Iniciação Acadêmica dos Estudantes Indígenas e, sem passar pelo processo de integração, Queiroz disse que o ingresso na vida acadêmica lhe causou “um choque muito grande”. “Não sabia nem o que era um artigo científico, normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). E quando você não está preparado para algo, vai levar algumas rasteiras. Comecei a pesquisar, reprovei alguns anos, tive um pouco de dificuldade”, relembrou.
Dentro da academia, disse o estudante, toda a sua produção sempre esteve voltada à causa indígena. No ano passado, ele ingressou em um projeto de extensão no qual trabalha com conteúdos audiovisuais nas escolas indígenas do Paraná. Foi na academia também que ele descobriu conceitos como o etno-jornalismo e etno-participação. “Quando o indivíduo de uma cultura produz conteúdo jornalístico para outras culturas, é uma produção etno-jornalística”, explicou. “Minha etnia é do Nordeste, os fulni-ô. Meu avô veio para cá há quase 70 anos e passou a morar na comunidade caingangue, na Reserva do Apucaraninha, onde passei parte da minha vida. Faço um debate entre o pertencimento fulni-ô e kaingang.”
Queiroz combate o estigma de que o indígena, quando começa a estudar, perde a cultura. “Isso não existe. Quando o indígena vem para a academia, vê a cultura do não indígena, mas não deixa de manter viva a cultura do seu povo. O povo não indígena tentou usar da educação escolar para nos aculturar. Hoje a gente usa a educação como uma ferramenta de fortalecimento, de luta pelos nossos direitos, de resistência e mantendo nossa própria cultura.”


