Na terra vermelha do caminho pioneiro
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Sob o sol escaldante destas tardes quentes de verão, o vendedor de vassouras José Marciano, 53 anos, cruza os seis quilômetros de terra da Estrada dos Pioneiros, que liga Londrina a Ibiporã. É a rotina diária do homem que garante o sustento da família vendendo vassouras de palha nas duas cidades, utilizando a via que foi o primeiro caminho dos colonizadores da ''Pequena Londres'' como atalho para tocar o seu negócio, encurtando a distância da clientela entre os dois municípios.
Se o asfalto já tivesse coberto a terra vermelha da estrada seria melhor, afirma o vendedor, que não reclama do forte calor e do peso da mercadoria na garupa da bicicleta. Segue firme pelo caminho, suando a camisa.
A estrada que hoje é caminho de todos os dias do ''vassoureiro'' José pode muito bem ser considerada patrimônio histórico do Norte do Paraná. Em 21 de agosto de 1929, a caravana chefiada pelo jovem paulista filho de ingleses George Craigh Smith passou por ali.
Os homens que acompanhavam Smith também estavam com as camisas molhadas de suor, mas em vez de bicicletas usavam mulas e burros. Nas mãos levavam facões para abrir a picada que depois seria estrada no meio da mata fechada.
Pelo o que consta nos livros de história, também não reclamavam, mas nutriam o desejo de chegar logo na área de 515 mil alqueires comprada pela Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP).
Os homens da caravana partiram de Jataizinho, que naquele tempo era a ''Colônia Militar Jatay'' e um dos poucos lugares da região onde pequenos rastros da república haviam chegado naquele começo de século 20. A travessia do rio foi de balsa para os homens e a nado para os animais.
Quando finalmente a caminhada dos pioneiros terminou, já à tarde, e o agrimensor russo Alexandre Razgulaeff disse convicto ''é aqui'', veio o alívio. O descanso foi regado à água fresca das três minas do Marco Zero de Londrina, que rendeu à cidade o primeiro nome de ''Patrimônio Três Bocas''.
Rota movimentada
Originalmente a estrada pioneira ia até onde hoje está a mata do Marco Zero, pertinho da Rodoviária, na Avenida Theodoro Victorelli. E até a década de 1960 foi o caminho oficial dos homens e mulheres que chegaram à cidade com sonhos e desejo de vencer na bagagem.
''Quando cheguei, em abril de 1949, de jipe, o caminho ainda era cercado de mato e era feito, praticamente, da marca dos pneus dos automóveis. A 500 metros da entrada da cidade, perto da antiga serraria da família Curoto, havia uma placa: 'Iguais a você existem 10.000''', relata o pioneiro José Orquiza, que deixou a fazenda na qual trabalhava o pai em São Sebastião da Amoreira para trabalhar em Londrina.
Atualmente, a estrada parte do jardim Santa Paula, em Ibiporã, perto da BR-369 - rodovia que ganhou asfalto entre os anos 1960 e 1970, e passou a ser o caminho preferencial de um município a outro -, e termina na Zona Leste de Londrina, no entroncamento com a Avenida Celso Garcia Cid.
No trecho urbano de aproximadamente dois quilômetros, que leva o nome de Avenida dos Pioneiros, já há asfalto, que vai até a Universidade Tecnológica Federal, recém-chegada à cidade.
Já na zona rural, sem asfalto, percorrido nesta semana pela reportagem, o que se vê ao redor é soja. De mata só restou pequena reserva de uma fazenda. A lavoura ''engoliu'' até lugarejos que já foram patrimônios, mas não engoliu a estrada. No horizonte, uma Londrina de muitos prédios. ''É interessante. Quando eu cheguei, o que se via era poeira'', comenta José Orquiza.
Às margens do caminho, entulho, lixo e até sofá abandonado. Sinais dos tempos e da urbanização que vai avançando. A prova é que o asfalto, depois de anos de promessas, parece que está perto de chegar no primeiro caminho para a ''cidade de braços abertos''.
A reportagem encontrou o pessoal do Departamento de Estradas e Rodagem do Paraná (DER) fazendo as medições para o projeto que depois seguirá para a capital para os trâmites burocráticos. Enquanto isso, a prefeitura de Ibiporã segue na campanha para que a estrada ganhe pavimento e passe a ser, mais uma vez, rota movimentada.


