Meu coração disparou na frente da TV. Na telinha, depois das imagens mostrando os estragos que as enchentes andam causando, principalmente nos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, apareceu um cenário que fez acelerar ainda mais as batidas no meu peito: a Igreja Matriz de Laje do Muriaé (RJ) lá no alto e, embaixo, a praça coberta pela água da enchente, já quase chegando até a metade dos degraus da enorme escada que leva os fiéis até a porta principal do único templo católico da cidade.
Por que me emocionei? Ora, que pergunta, sou nascido lá, sou lajense da gema, papa-goiaba de primeira e lá morei até os 10 anos de idade. Claro que, depois de 42 anos de Londrina, os pés se avermelharam por esta terra sem igual. Mas a pequena Laje do Muriaé, cidade construída às margens do rio Muriaé, esse mesmo que está transbordando agora e inundando inúmeras cidades daquela região que faz divisa com Minas e Espírito Santo, ainda está muito presente na lembrança.
E, entre as muitas recordações, as enchentes ocupam lugar de destaque na memória: Laje, de tempos em tempos, sempre por essa época, tem ruas e casas invadidas pelas águas do rio que corta a cidade de cima em baixo. Me lembro até de uma vez, de madrugada, todo mundo acordando com as camas já boiando nos quartos, as panelas passeando pela casa, balançando sobre a água, e a gente tentando pegá-las antes que a correnteza as levasse.
Tudo isso e muito mais veio à minha cabeça enquanto via, na TV, minha cidade natal quase que submersa. E os olhos buscavam identificar algum parente - são tantos -, um conhecido, um amigo de infância. Vi a prefeitura com água até o meio da parede e me lembrei do primo Asdrúbal e da prima Laurides que moram nas imediações - suas casas deviam estar também alagadas.
Foi então que, de repente, apareceu na telinha a cara redonda e bonachona do Chupim. A emoção bateu forte ao ver o meu amigo de infância, filho da dona Nenzinha, comadre da minha mãe, dando entrevista na Rede Globo e colocando sua casa à disposição de toda a vizinhança, amigos que foram desabrigados pelas águas furiosas do Muriaé.
E se me emocionei ao vê-lo, não me surpreendeu o gesto de generosidade: a casa do Chupim, lá em Laje, está sempre aberta e é uma espécie de ninho onde todos são bem acolhidos e tem sempre alguma coisa para beliscar ou bebericar. Ele mesmo é chegado numa cachaça e numa carninha de porco. Dono de uma oficina mecânica e de um botequim, ambos no mesmo terreno da casa onde mora, Chupim é pai de muitos filhos e já avô de sei lá quantos netos. Moram todos juntos. Ele já foi muito pobre. Hoje não é rico, mas tem o coração maior que o peito.
Moleque, ele fica sempre na porta do botequim mexendo com um e outro. Não raro, oferece um refrigerante pra quem passa cansado e suando à sua porta. É atencioso com os idosos e tem sempre uma palavra respeitosa para as senhoras. Mas não se enganem: Chupim não é nenhum santo. Bom de papo e esperto no raciocínio, quem se mete a trocar palavras com ele corre o risco de cair em alguma esparrela e virar motivo de riso, já que seu palavreado cheio de gíria é de causar muita risada. Sua boca, também, quando o sujeito merece, é uma sequência de palavrões e, se tiver de partir pra porrada, é com ele mesmo.
A última vez que nos encontramos foi há 4 anos, depois de mais ou menos 12 sem eu aparecer por lá. Ele me viu de longe e gritou. Mal sentei no boteco, ele me apresentou toda a família, abriu uma cerveja e mandou a mulher trazer um prato de torresmo pra festejar o reencontro. Ele estava, como sempre, de bermuda, chinelo havaiana e, sem camisa, o barrigão despencando barriga abaixo.
Na conversa, depois de colocar o papo em dia, perguntar de um e outro, Chupim me revelou algo que eu não sabia: a felicidade que ele e os irmãos sentiam quando, ainda crianças, viam minha mãe chegar com as sobras do almoço de casa, comida que, muitas vezes, era a única que comiam no dia, já que a mãe dele era sozinha e o trabalho de lavadeira não era suficiente para todas as despesas da casa.
‘‘Eu nunca me esqueço disso’’, disse-me ele com os olhos marejando. A seguir, abriu mais uma cerveja. E, após gritar pro filho mais velho levar o carro já consertado de um freguês e pra mulher trazer ‘‘mais uma carninha de porco pro Apolinho salgar a palavra’’, Chupim abriu seu coração:
‘‘Você está em casa. Se quiser beber, bebe; se quiser comer, come; se quiser dormir, dorme. E não tem que pagar nada. Sei que cê tá na casa de parente, mas parente às vezes enche o saco, se quiser ficar aqui em casa pode ficar. Não tou brincando, não, bobo, a gente se aperta aqui embaixo e você pode ficar tranquilo no quarto lá em cima que ninguém vai te perturbar. É só não reparar a converseira, aqui todo mundo fala alto’’, alertou. E já deu um berro para um senhor idoso que passava na rua com ares de cansaço: ‘‘Ei pastor, descanse um pouco, vem tomar um guaraná aqui e ouvir umas mentiras. Só sua presença aqui já vai pôr muito coisa ruim daqui pra fora’’. E, insinuoso, olhou com a cara brincalhona para as mesas em volta. (Em tempo: para quem não sabe, papa-goiaba é o nome debochado que dão aos nascidos no Estado do Rio de Janeiro).

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