Na tela da TV, um papa-goiaba dos bons
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quarta-feira, 08 de janeiro de 1997
Apolo Theodoro 
Meu coração disparou na frente da TV. Na telinha, depois das imagens mostrando os estragos que as enchentes andam causando, principalmente nos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, apareceu um cenário que fez acelerar ainda mais as batidas no meu peito: a Igreja Matriz de Laje do Muriaé (RJ) lá no alto e, embaixo, a praça coberta pela água da enchente, já quase chegando até a metade dos degraus da enorme escada que leva os fiéis até a porta principal do único templo católico da cidade.
Por que me emocionei? Ora, que pergunta, sou nascido lá, sou lajense da gema, papa-goiaba de primeira e lá morei até os 10 anos de idade. Claro que, depois de 42 anos de Londrina, os pés se avermelharam por esta terra sem igual. Mas a pequena Laje do Muriaé, cidade construída às margens do rio Muriaé, esse mesmo que está transbordando agora e inundando inúmeras cidades daquela região que faz divisa com Minas e Espírito Santo, ainda está muito presente na lembrança.
E, entre as muitas recordações, as enchentes ocupam lugar de destaque na memória: Laje, de tempos em tempos, sempre por essa época, tem ruas e casas invadidas pelas águas do rio que corta a cidade de cima em baixo. Me lembro até de uma vez, de madrugada, todo mundo acordando com as camas já boiando nos quartos, as panelas passeando pela casa, balançando sobre a água, e a gente tentando pegá-las antes que a correnteza as levasse.
Tudo isso e muito mais veio à minha cabeça enquanto via, na TV, minha cidade natal quase que submersa. E os olhos buscavam identificar algum parente - são tantos -, um conhecido, um amigo de infância. Vi a prefeitura com água até o meio da parede e me lembrei do primo Asdrúbal e da prima Laurides que moram nas imediações - suas casas deviam estar também alagadas.
Foi então que, de repente, apareceu na telinha a cara redonda e bonachona do Chupim. A emoção bateu forte ao ver o meu amigo de infância, filho da dona Nenzinha, comadre da minha mãe, dando entrevista na Rede Globo e colocando sua casa à disposição de toda a vizinhança, amigos que foram desabrigados pelas águas furiosas do Muriaé.
E se me emocionei ao vê-lo, não me surpreendeu o gesto de generosidade: a casa do Chupim, lá em Laje, está sempre aberta e é uma espécie de ninho onde todos são bem acolhidos e tem sempre alguma coisa para beliscar ou bebericar. Ele mesmo é chegado numa cachaça e numa carninha de porco. Dono de uma oficina mecânica e de um botequim, ambos no mesmo terreno da casa onde mora, Chupim é pai de muitos filhos e já avô de sei lá quantos netos. Moram todos juntos. Ele já foi muito pobre. Hoje não é rico, mas tem o coração maior que o peito.
Moleque, ele fica sempre na porta do botequim mexendo com um e outro. Não raro, oferece um refrigerante pra quem passa cansado e suando à sua porta. É atencioso com os idosos e tem sempre uma palavra respeitosa para as senhoras. Mas não se enganem: Chupim não é nenhum santo. Bom de papo e esperto no raciocínio, quem se mete a trocar palavras com ele corre o risco de cair em alguma esparrela e virar motivo de riso, já que seu palavreado cheio de gíria é de causar muita risada. Sua boca, também, quando o sujeito merece, é uma sequência de palavrões e, se tiver de partir pra porrada, é com ele mesmo.
A última vez que nos encontramos foi há 4 anos, depois de mais ou menos 12 sem eu aparecer por lá. Ele me viu de longe e gritou. Mal sentei no boteco, ele me apresentou toda a família, abriu uma cerveja e mandou a mulher trazer um prato de torresmo pra festejar o reencontro. Ele estava, como sempre, de bermuda, chinelo havaiana e, sem camisa, o barrigão despencando barriga abaixo.
Na conversa, depois de colocar o papo em dia, perguntar de um e outro, Chupim me revelou algo que eu não sabia: a felicidade que ele e os irmãos sentiam quando, ainda crianças, viam minha mãe chegar com as sobras do almoço de casa, comida que, muitas vezes, era a única que comiam no dia, já que a mãe dele era sozinha e o trabalho de lavadeira não era suficiente para todas as despesas da casa.
Eu nunca me esqueço disso, disse-me ele com os olhos marejando. A seguir, abriu mais uma cerveja. E, após gritar pro filho mais velho levar o carro já consertado de um freguês e pra mulher trazer mais uma carninha de porco pro Apolinho salgar a palavra, Chupim abriu seu coração:
Você está em casa. Se quiser beber, bebe; se quiser comer, come; se quiser dormir, dorme. E não tem que pagar nada. Sei que cê tá na casa de parente, mas parente às vezes enche o saco, se quiser ficar aqui em casa pode ficar. Não tou brincando, não, bobo, a gente se aperta aqui embaixo e você pode ficar tranquilo no quarto lá em cima que ninguém vai te perturbar. É só não reparar a converseira, aqui todo mundo fala alto, alertou. E já deu um berro para um senhor idoso que passava na rua com ares de cansaço: Ei pastor, descanse um pouco, vem tomar um guaraná aqui e ouvir umas mentiras. Só sua presença aqui já vai pôr muito coisa ruim daqui pra fora. E, insinuoso, olhou com a cara brincalhona para as mesas em volta. (Em tempo: para quem não sabe, papa-goiaba é o nome debochado que dão aos nascidos no Estado do Rio de Janeiro).


