Curitiba é uma cidade que fascina. Até mesmo os sem-teto. ‘‘Chega de andar pra lá e pra cá. Agora queremos fixar um lugar em Curitiba porque aqui tem mais possibilidade de se conseguir emprego’’, diz Manoel Ortiz, 39 anos. Por enquanto, o que conseguiu na capital foi dormir embaixo do viaduto da Avenida Marechal Floriano, na Vila Hauer. Enrolado num cobertor que mais parece um trapo sujo, Manoel e a companheira, Maria Regina de Assis, 27 anos, planejam ter casa e comida. ‘‘Não estou acostumado com isso não. Meu negócio é sossego, uma casa para morar’’, diz.
‘‘O negócio é pedir mesmo’’, afirma Maria, que está junto com Manoel há dois anos. Com os biscates que realiza, ele diz que consegue tirar R$ 180,00 e sobreviver. Já ganhou mais quando trabalhava numa usina de cana-de-açúcar em Itapejara do Oeste. ‘‘Fui parar na rua porque fui traído pela minha mulher. Perdi tudo o que tinha. Estava bem empregado, dava para pagar o aluguel e acabei ficando assim. Foi fatal’’, lembra.
O choque de ter sido enganado pela mulher deu coragem reforçada para Manoel enfrentar os desafios da rua. ‘‘Já que a gente está na rua, não pode ter medo, tem de enfrentar o que der e vier’’, diz. Maria Regina, que aparenta ter problemas mentais, também tem seus dramas particulares. Desde que se tornou uma sem-teto, não vê mais os dois filhos. Júlio, 5 anos, mora com o pai, e Juliana, 8 anos, foi adotada. Os dois vivem no município de Santo Antônio da Platina.
Ser mendigo em Curitiba não representa nenhuma vantagem. É muito pior do que em outras cidades, afirma o desempregado Getúlio Ferreira de Almeida, 49 anos. ‘‘O sem-teto sofre mais porque aqui não tem serviço. Para você entrar numa firma aqui tem que ter faculdade’’, opina, ao comparar situação vivida em São Paulo. Para sustentar sua tese, ele puxa do bolso sua carteira de trabalho e exibe registros na fábrica da Volkswagen. Ele diz que possui residência em Almirante Tamandaré, mas a casa não pode ser ocupada porque foi alugada pela sogra, a verdadeira proprietária. (D.V.)

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