A primeira lição foi a mais difícil: nada de conversar com o coleguinha do lado, fazer barulho com papel de bala, estalando dentro da boca, porque -diferente de um show de rock -ópera exige silêncio para não quebrar a concentração no palco. A segunda lição foi de educação:''Aplausos só no final da peça'', ensinou uma professora. A terceira lição, por sua vez, durou cerca de uma hora do espetáculo ''La Liberazione Di Ruggiero dall'Isola di Alcina'', fazendo com que cerca de 600 alunos de escolas londrinenses entrassem ontem à tarde, no Teatro Ouro Verde, na pontinha dos pés da arte, em um mundo ainda desconhecido pela maioria deles. Lição aprendida para a vida toda.
Lá nesse mundo, os pequenos conheceram a feiticeira Alcina, soberana de uma ilha, que seduz e transforma todo aquele que tem a infelicidade de parar em suas águas. Uma história criada por encomenda pela arquiduqueza da Áustria Maria Madalena, para celebrar a visita do príncipe Wladislaw IV, da Polônia, inspirada em contos do livro ''Orlando Furioso'', de Ludovico Ariosto (1474-1533), adaptada para a ópera pelo libretista Fernando Saracinelli.
Em cena, 16 músicos na orquestra, sete solistas e um coro de 24 vozes conduziram o público aos limites do enredo. Na platéia, os olhinhos estreantes nesse tipo de espetáculo e perninhas alvoroçadas, balançando de entusiasmo nas poltronas, revelavam que a platéia, sem perceber, já estava pisando nos domínios da primeira ópera apresentada por uma mulher.
Raquel Muller, 9 anos de idade, aluna da 3 série do fundamental da Escola Seta Nossa Escolha, guardava, como que nos bolsos, uma expectativa a mais com relação à ópera, ainda na fila para entrar no teatro.
''Espero que seja bastante divertida. A diretora da escola já tinha contado a história para nós, sabemos como vai ser'', afirmou a garota, que seguiu em disparada, junto com os outros estudantes, buscando a melhor poltrona para assistir ao espetáculo.
As professoras que acompanhavam os alunos já tinham idéia sobre a próxima lição em sala de aula, tendo como ponto de partida a ópera. ''É um tipo de coisa que eles nunca assistiram e que incentivará neles o gosto pela cultura'', garantiu a professora do Colégio Estadual Evaristo da Veiga, Angela Pedrini.
Quando as luzes do teatro se apagaram, os estudantes aprenderam uma nova lição: para o espetáculo começar é preciso fazer silêncio. Mas como ficar quieto se as pernas, a boca, os braços, o corpo inteiro está em comichão para conversar?
''Tia, estou com fome, tia quero ir ao banheiro, tia quero tomar água, tia..tia..'' - desculpas não faltaram para alguém querer pular da poltrona, mas as cores dos figurinos, as nuances dos barítonos, tenores e sopronos, e os instrumentos costurando o enredo se encarregaram de deixar grudado até o mais espoleta.
Outros, mais comportados, como Eduardo Vinícius Alves Marçal, 9 anos de idade, que estuda na 4 série do fundamental do Colégio Estadual Evaristo da Veiga, terão muito para contar sobre o dia em que assistiram uma ópera. ''Estou gostando de assitir pelas coisas que os atores fazem, a letra da música...''- antecipou o garoto.
Eduardo Vinícius se juntou aos demais estudantes no encerramento da apresentação, soltando as pernas da poltrona, para aplaudir o elenco e, a exemplo da coleguinha Jéssica Siqueira Gonçalves do Nascimento, 8 anos, aluna da 2 série do fundamental, ensinar uma última lição: ''Gostei de tudo'', concluiu a menina, ensinando que um pouco de cultura não faz mal a ninguém, basta ter oportunidade.

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