Em tempos em que o consumismo norteia o modo de vida de grande parte da população, uma realidade ainda se mantém camuflada atrás de montanhas de lixo. São inúmeras famílias que vivem à margem da pobreza e encontram no garimpo dos ecopontos a única forma de sobrevivência.
Na zona Leste de Londrina, este cenário é real na área de invasão conhecida como "Morro do Carrapato", um local onde vivem homens, mulheres, crianças e adolescentes, muitas vezes sustentados por pouco mais de R$ 100 por mês.
O contraste dessa realidade pode ser atribuído à ferrovia, que separa o Morro do Jardim Laranjeiras. É como se a linha de trem fosse o limite, onde se exclui essa população dos demais que têm os mínimos direitos de cidadania garantidos.
Para eles, sobreviver do lixo é a oportunidade de manter o mínimo de dignidade. Garimpar o ecoponto dia e noite, durante horas, é uma rotina onde não há espaço para sonhar acordado. O desejo de cada um é momentâneo, onde o que importa é o dia que se tem pela frente.
A qualquer hora do dia é possível encontrar vários "garimpeiros" espalhados entre as montanhas que se formam no ecoponto instalado entre os jardins Monte Cristo, Santa Fé e Morro do Carrapato. Mas é nas primeiras horas da manhã que a maioria deles se mistura entre restos de galhos, brinquedos, móveis, recicláveis e roupas. A convivência diária os aproxima e cria um círculo de amizade, onde se diz poucas palavras, mas trocam-se muitos "achados".
Além dos estalos do fogo que vai consumindo o mato seco, o som que predomina no local vem do impacto dos pedaços de madeira que espalham o lixo e abrem sacolas plásticas. Dessa forma, eles evitam tocar em algo indesejado, como por exemplo, animais mortos que aparecem com frequência.
"Sei lá o que se faz com o cobre, mas deve ir para São Paulo, não é?", pergunta Valdecir Alexandre, de 53 anos, morador do Monte Cristo. Há quatro anos, ele sobrevive dos materiais que garimpa no ecoponto. Ele passa o dia inteiro em busca de cobre e alumínio e o dia que tem sorte recolhe cerca de cinco quilos do material.
"Quatro anos não são quatro dias. A gente acostuma. Daqui pago minha água e luz e ainda levantei minha casa. Tudo veio do lixo. Desde os azulejos até as grades e portões. Já consegui televisão, rádio e até telefone celular. Tudo funcionando", diz o pai de três filhos, que lamenta a falta de oportunidades. "Quando era jovem, trabalhei como pedreiro com carteira assinada, mas eu não tenho muito conhecimento e já tenho certo idade. Vou fazer o quê?", indaga.
O sonho de ser advogado foi abandonado há muito tempo e deu lugar à conformidade. "Essa vida é sofrida, mas tem um ditado que diz que 'rapadura é doce, mas não é mole não'. Não dá para ficar lamentando. O jeito é lutar para viver. Graças a Deus eu tenho comida todos os dias", desabafa.
O preço pago pelo quilo de cobre é R$ 13. Esse valor é um dos mais altos para quem garimpa os ecopontos e também o que mais atrai os catadores, como um adolescente de 13 anos, que aproveita os domingos para ir ao lixão. "Venho pegar cobre para ajudar em casa", diz o garoto, que não pensou duas vezes em responder que com esse valor compraria ingredientes para a mãe fazer doce.
Cativante, o menino mostrava a quantidade de brinquedos jogados fora e comemorou quando encontrou boas espigas de milho. "Vou ficar aqui até conseguir um tanto bom (de cobre). Na verdade, a gente fica aqui esperando, porque toda hora pode chegar lixo", revela o garoto, que frequenta a escola e também participa de projetos sociais.
Do outro lado do lixo, Maria Aparecida Rosa, de 44 anos, diz ter 20 anos de "profissão". Todos os dias, ela chega ao ecoponto às 7 e só vai embora às 15 horas. Ela mora no Santa Fé com o marido e filho e o sustento da casa vem dos recicláveis. Por mês, ela ganha cerca de R$ 200, usado para cobrir a maior necessidade: comida. "O lugar onde moro foi erguido com tijolos que tirei daqui. A gente aproveita tudo, desde roupa até restos de construção. Não tenho condições de comprar nada e por isso dependo daquilo que não serve mais para as pessoas", lamenta.
Embaixo do sol forte, Maria da Luz, de 57 anos, aparece na companhia do cachorro Zé. Moradora do Morro há oito anos, ela conta que há tempos aguarda uma casa no Residencial Vista Bela (zona norte) por meio do programa Minha Casa Minha Vida, do governo federal. E enquanto essa notícia não chega, ela se mantém da reciclagem.
"Vivo por Deus e pelo povo que me ajuda. Todo o dinheiro que ganho vem desse monte de lixo. Todos os dias venho de madrugada para aproveitar o que é jogado durante a noite. As coisas que tenho em casa são tudo o que fui encontrando aqui, em bom estado", comenta Maria, que é bem conhecida entre os catadores. "As pessoas me conhecem porque já estou há muitos anos nesse lugar. Não tenho vergonha do que faço, mas isso não é vida. Acho que nós estamos abandonados aqui e o mínimo que queremos é uma melhor condição, principalmente para morar", desabafa.
Ao descer o Morro, barracos de madeira, muitas vezes com um único cômodo, abrigam crianças e adultos. Dentro das casas, praticamente todos os móveis, utensílios e roupas foram reaproveitados da "linha", como eles próprios dizem. Na casa de Maria Aparecida Rodrigues, de 57 anos, que vive com a filha e o neto de quatro anos, o sofá, os armários da cozinha e até o fogão foram
"achados" no lixo.
Analfabeta, Maria diz que trabalhou apenas uma vez com carteira assinada. Hoje, o sustento depende dos materiais recicláveis que recolhe. "Se não fosse a linha, muita coisa ia faltar para nós. Como tenho problemas de saúde, está ficando cada vez mais difícil. Minha vida, há muitos anos, é entre minha casa e a linha, porque tenho medo de sair e não saber voltar. E assim vou levando", declara.
A equipe de FOLHA passou uma manhã conversando com as famílias que vivem do ecoponto na zona leste. Apesar da extrema pobreza em que se encontram, esses garimpeiros entrevistados não abaixam a cabeça para as lamentações. Eles demonstram satisfação ao encontrar algo que possa lhes ser útil, além do extremo respeito para com todos. Desde o "bom dia" à despedida com "uma boa semana", eles são um exemplo de que, apesar das diferenças sociais, a luta pela sobrevivência pode andar na linha da dignidade.

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