Na garupa do Moto-Táxi
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de julho de 1997
Lúcio Horta 
Londrina
Quinze minutos para as quinze horas. Quinta-feira. A motocicleta Honda ML, vermelha, estaciona em frente à Biblioteca Municipal, centro de Londrina. Começa uma viagem que vai durar quase toda a tarde, cruzando os quatro cantos da Cidade na garupa de uma motocicleta. Mais precisamente, na garupa de empresas que operam o serviço de moto-táxi. O objetivo é conhecer a eficiência e conforto (ou falta deles) e mostrar os profissionais que trabalham no serviço. Sem identificar, em momento algum, que se trata de uma reportagem. Além disso, o mais importante: conhecer qual é o nível de segurança para o cliente.
A motocicleta nem saiu do lugar e, para um garupeiro de primeira viagem, já surge a primeira dificuldade: não existe um lugar específico para o sujeito da garupa se segurar - apenas uma barra de alumínio, apertada, que está grudada ao banco. Para piorar, o passageiro ainda carrega uma pasta de papel na mão, onde guarda anotações. Sobram duas alternativas: ou abraça a cintura do motociclista ou divide os dedos entre a pasta e a barra apertada, ficando com pouco equilíbrio e segurança. Contrariando a lógica, a segunda opção parece mais adequada: é muito difícil encontrar na rua passageiros do sexo masculino dispostos a segurar a cintura do condutor.
Embora apenas duas empresas operem legalmente o serviço de moto-táxi em Londrina, por força de liminar, é possível conseguir 18 números de telefone junto à Sercomtel, através do 102. Mas a quantidade de empresas é ainda muito maior, e a estimativa do próprio setor é que pelo menos 500 pessoas estejam trabalhando. Por causa da proibição - e para evitar a fiscalização - sumiram os jalecos identificando quem faz e quem não faz o serviço. Agora, o cliente chama pelo telefone e a empresa manda a motocicleta sem nada que a identifique. Às vezes, a atendente pede para que o cliente dê alguma referência, como por exemplo a cor da camisa que está usando ou mesmo o tipo físico.
Foi o que aconteceu com a moto-táxi que parou, confiante, em frente à Biblioteca, já se dirigindo ao passageiro. Na garupa, outro detalhe: o painel da motocicleta estava desfigurado, com o ponteiro do velocímetro quebrado pela metade, sem fazer o mínimo movimento. O motociclista, no entanto, parecia ser cuidadoso, não acelerou forte nem costurou no apertado trânsito do centro de Londrina. Apenas avançou uma faixa de sinalização e furou um sinal vermelho durante o trajeto, cujo destino era a agência do Banestado da avenida Saul Elkind, nos Cinco Conjuntos (zona norte).
Passando em uma das travessas da avenida Curitiba, no conjunto Violin, uma lembrança pouco agradável: foi em abril, quando moradores fecharam a rua com pedaços de árvores, pedras e pneus em chamas. A manifestação era contra a péssima qualidade do asfalto naquela avenida, que ainda hoje não está nas melhores condições. A gota dágua, para os moradores, foi justamente a morte de um motociclista, que se desequilibrou nos buracos e ondulações da rua e teve uma queda fatal.
Fim de linha. Em exatos quinze minutos deu para sair do centro e chegar à Saul Elkind, em frente ao Banestado. O motociclista retorna com os dois reais da corrida no bolso. Depois de uma breve pausa para anotações, outra empresa - da zona norte - é acionada de um telefone público. O destino agora é o jardim Bandeirantes (zona oeste), mais precisamente o 3º Distrito Policial.
Em menos de dez minutos chega a moto-táxi. A Honda LX 150 cilindradas chama atenção pelas cores: preta, roxa e amarela. Quase uma escola de samba. Com a pasta de papelão por dentro da jaqueta, não foi muito difícil se segurar na barra apertada da garupa. Em comparação com a viagem anterior, era segurança total. Curioso, em uma das ruas marginais do Cincão, foi cruzar - de uma só vez - com um caminhão, um ônibus e... um cavalo. Todos vindo em nossa direção. A moto, o ônibus e o cavalo chegaram a ficar paralelos, passando ao mesmo tempo na rua estreita. O motociclista jogou o corpo para esquerda, a moto para direita, o sujeito da garupa acompanhou o movimento e todos saíram ilesos.
Em poucos minutos deu para alcançar a avenida Rio Branco, passando ao lado do Estádio do Café. Depois de dobrar à direita, o primeiro trecho de rodovia: a BR-369, ou avenida Brasília, como é conhecida enquanto corta a Cidade. Tranquilo, o motociclista deixava que carros e caminhões passassem por ele, até alcançar a entrada de acesso para o jardim Bandeirantes. Só não deu para verificar a velocidade do veículo de duas rodas: o velocímetro também estava quebrado e o ponteiro repousava impassível.
Um problema encontrado em quase todos os motociclistas é a falta de orientação para se locomover na Cidade. A maioria não carrega mapas no bolso e vão apenas pela noção. Quando acham que já estão perto do destino, páram e perguntam a algum morador da região. Foi assim com o primeiro moto-táxi e foi assim também que chegamos ao 3º Distrito, depois de viajar por pouco mais de 20 minutos.
Do próprio distrito policial foi acionado outro serviço de moto-táxi, que opera a partir das região oeste. Faltam vinte minutos para as 16 horas. Chega a Honda CG, 125 cilindradas, da cor preta. O destino - Grêmio Recreativo, em frente à avenida Brasília, na zona leste de Londrina - é relativamente simples para chegar, porém mais perigoso, com um longo trecho de rodovia.
CENA COMUMFuncionário de uma das empresas de moto-táxi de Londrina conduz passageiro pelas ruas do centro, em foto de arquivo: serviço pouco confortável, relativamente inseguro e muito barato
A primeira pergunta do motociclista é se o passageiro estava com pressa. A negativa parece ter aliviado o condutor que, cuidadoso, parava em todos os sinais, não avançava faixa e não acelerava muito. Da avenida Arthur Thomas para a rodovia, a velocidade média não passou dos 70 quilômetros por hora - finalmente um velocímetro que funciona! Em menos de meia-hora chegamos com segurança ao Grêmio. O motociclista fez questão de passar um cartão da central, com a senha pessoal. Se não tiver eu tem minha mulher lá, pode chamar, observou, depois de trocar uma nota de R$ 5,00 por três de R$ 1.
Sem perda de tempo, a quarta empresa do dia é acionada, através do telefone emprestado numa loja que trabalha com óleo diesel. Mas a coisa começou a complicar: a atendente primeiro não sabia ao certo onde era o Grêmio. As explicações de praxe - na BR, em frente a uma conhecida loja de pneus - parecem bastar. Já está saindo, foi a resposta da moça.
Enquanto esperava, o cheiro de fumo barato - que paira na região - ardia nas narinas. Dez, vinte, trinta minutos e nada de a moto aparecer. A alternativa foi ligar de novo, desta vez através do telefone do próprio Grêmio. A mesma moça disse que o rapaz já tinha saído, chegou na entrada (que não era a que o pasageiro estava) do Grêmio, não achou ninguém e voltou para trás. As mesmas explicações - BR, em frente à loja de pneus - e a mesma respota: Já está saindo.
Dez, vinte, trinta, quarenta minutos e nada. O cheiro do fumo provocava uma leve dor de cabeça, enquanto o sol ardia no rosto. Até um funcionário do Grêmio, preocupado com a situação, puxava conversa fiada para ajudar a passar o tempo. Mas aí já era tarde: o mito da eficiência e da rapidez do moto-táxi naufragou na falta de organização e caráter improvisado - pelo menos naquela empresa.
Desta vez foi um rapaz que atendeu. Finalmente, alguém entendeu na hora onde estava o passageiro. A CG 125 branca e velha (muito velha) chegou às 17h10, meio afobada, e o motociclista tentava explicar a confusão do colega. Ele deve ter ido te buscar no outro Grêmio, disse, enquanto entrava numa contra-mão e cruzava, perigosamente, diante de carros e caminhões que tentavam alcançar a BR-369. A próxima parada agora é a Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), zona sul.
O velocímetro quase enganou: dava a impressão que o ponteiro estava em movimento, conforme a velocidade da moto, mas na verdade não saia dos 30 quilômetros por hora. Mesmo quando a moto parava em um cruzamento, o ponteiro permanecia lá, nos mesmos 30 km/h. O espelho retrovisor direito também estava ausente, e a barra de alumínio - colocada junto ao assento - castigava os já castigados dedos da mão. Pior mesmo era passar pelos corredores formados entre carros e caminhões na Via Expressa, enquanto aguardavam o sinal abrir. Para quem não está acostumado a andar de motocicleta - como é o caso -, a impressão confirma uma velha crítica, de que pernas a qualquer momento podem virar pára-choques.
Do orelhão, em frente a um boteco, chamamos a última empresa de moto-táxi. Depois de sair da zona norte, ir para zona oeste, passar pela zona leste e chegar à zona sul, finalmente o destino era novamente o centro de Londrina, em frente à Biblioteca Municipal, ponto de saída. A primeira surpresa: esse motociclista era o primeiro que atendia usando jaleco, identificando a empresa. Ou seja: das cinco empresas consultadas, aleatoriamente, foi a única habilitada a operar na Cidade.
A segunda surpresa - essa muito melhor - foi que a Honda Titan, 200 cilindradas, tinha um apoio específico para as mãos do carona. Foi o único modelo que apresentou o dispositivo nas cinco corridas. E o velocímetro também funcionava, embora o condutor não corresse muito. Difícil era colocar mais um capacete: superado o transtorno dos óculos (tira a armação, põe o capacete, abre a viseira, coloca os óculos, encaixa as astes...), sobrava a pouca higiene e a oleosidade suspeita formada nos cabelos. Em todas as viagens, nem sombra das tais toucas descartáveis que seriam oferecidas aos clientes.
Atravessamos a PR-445, entramos pela Via Expressa, passamos pela rua Escócia e, finalmente, a avenida Inglaterra. Poucos minutos e chegamos ao centro, onde o movimento de fim de tarde estreitava as ruas. Já são quase 18 horas. Depois de alguns corredores formados por carro - metade com as luzes acesas, metade não -, chegamos em frente à Biblioteca. Trocados R$ 2,00, um até logo, obrigado e, enfim, de volta à Redação.
Conforto, muito pouco. Segurança, discutível. Já o preço é imbatível: com R$ 10,00 foi possível cruzar os quatro cantos de Londrina. Vários quilômetros que, computados por um táxi convencional, no mínimo quadruplicaria o custo das viagens.
Sem contar todos os aspectos legais envolvidos na questão, a resposta vai depender de cada um. Quem está a acostumado andar de motocicleta talvez não veja tanto perigo no serviço. Talvez, para quem não tenha o hábito, esse perigo seja superestimado. De tudo isso, sobram as estatísticas: segundo dados da própria Companhia de Trânsito de Londrina, a motocicleta é - e a tendência é que continue sendo - o veículo que mais mata no trânsito de Londrina, uma média de quatro a cinco mortes mês, o que levou a Companhia Municipal de Urbanização a dar parece contrário à regulamentação do serviço quando a Câmara apreciava projeto neste sentido.
Responda você, leitor: vale a pena?


