Na esquina da Felicidade com a Ternura
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quinta-feira, 10 de janeiro de 2019
Lais Taine<br>Reportagem Local 

Os caminhos de Londrina podem levar da rua dos Cozinheiros, no União da Vitória (zona sul), à rua dos Pintores, no Chefe Newton (zona norte). Apesar da distância, entre o encontro de profissões é possível pisar em outros estados e países, observar serras, oceanos, pássaros e ainda encontrar cientistas e escritores famosos. Os nomes de ruas de bairros temáticos são curiosos e geram história entre moradores.

Aparecido Acácio Beloso, 73, vive na rua da Esperança, no jardim Ruy Virmond Carnascialli (zona oeste) há 40 anos. Antes de ser sorteado pela Cohab (Companhia de Habitação de Londrina), tinha a esperança de conseguir justamente a casa em que vive hoje. Seis meses depois da mudança, a rua recebeu o nome que lhe agrada até hoje. "Eu gosto. O bairro só tem coisas boas: rua da Vitória, rua da Sorte, da Paz", brinca.
Nada mais emblemático que encontrar os amigos na esquina da rua da Amizade. É lá que o garçom aposentado passa o dia sentado na praça conversando com vizinhos. "Eles se encontram aqui, tenho amigos de longa data do bairro", conta. Perto dali, na rua da Felicidade, Odete Dias, 73, relembra os 30 anos que viveu ali. "Eu gosto daqui, é um bairro tranquilo, sossegado. Eu fui e sou muito feliz na rua da Felicidade. Essas ruas trouxeram coisas boas para a gente", sorri.
Londrina não tinha regras muito bem estabelecidas sobre denominação de locais públicos. Foi em 1990, com a Lei Orgânica do Município, que algumas normas foram instauradas, como exigência de comprovação de óbito e dados biográficos do homenageado. Algumas dessas histórias estão listadas nos livros Caminhos de Londrina, disponibilizados no site da Câmara Municipal e nos museus e Bibliotecas Públicas da cidade.
Em 1998, uma nova lei (nº 7.631) determinou critérios específicos para este fim. Entre eles, a proibição de nomes de personalidades vivas e a preferência de que vias do mesmo loteamento tenham nomes correlatos ou seriados pela significação ou pela forma, como a desses bairros temáticos citados.
PEQUENO PASSO
Antes de Neil Armstrong pisar na lua, em 1969, Londrina já tinha conquistado essa proeza. Na mesma década, foi fundado o jardim do Sol (zona oeste) e seus nomes de ruas com astros. Na rua da Lua, Otávio Pietsiaki, 57, conta que na infância andava por entre planetas e que as ruas não eram asfaltadas, formando crateras como as da lua.
Por falta de um, a rua tinha dois Antônios para dar motivo para quem quisesse brincar com o personagem Tonho da Lua, da novela Mulheres de Areia, de 1993. "Tinham dois Antônios vizinhos aqui, os dois morreram no mesmo dia e foram velados juntos", cita a curiosidade revelando a amizade entre os moradores.
Na vizinha Saturno, Maria Aparecida Alves, 65, conversa com as amigas na calçada. Lembra que quando mudou no início do bairro, não tinha luz nas casas, o que o tornou até poético: um bairro celeste iluminado pela luz das estrelas. Por conta das vias, ela conta que acabou aprendendo um pouco sobre o sistema solar. "Conheço os nomes de alguns planetas, como Saturno, Mercúrio, Vênus...", ri enquanto enumera de acordo com o nome das ruas próximas.
DAS MULHERES
Maria Quitéria foi a primeira mulher a fazer parte do Exército Brasileiro e lutou bravamente na Independência do Brasil. Na zona leste, o nome da militar estampa uma das placas no bairro que homenageia grandes mulheres da história: o jardim Brasília.

Apesar da honra, nem todos os nomes são conhecidos. "Confesso que não conheço a história dela, sou nova aqui em Londrina e não sei nem o nome de outras ruas do bairro também", conta Maria Aparecida Adriano, 52. Do Rio de Janeiro, a comerciante veio com o marido e quatro filhos há cerca de um ano. Mesmo não sabendo sobre Maria Quitéria, reconhece a importância da homenagem. "Somos todas mulheres fortes, só de você sonhar e ter objetivos, já faz parte. Acabo me sentindo homenageada também", afirma a mulher de batalha como sua xará.
Em outra rua do bairro, Joana D'Arc é quem dá passagem. Mercedes Carvalho de Souza, 74, contou que o filho pesquisou quem foi a mulher que deu nome à rua. A moradora mudou-se para o novo endereço após perder o marido aos 73 anos. Ela trabalha no setor financeiro e se considera uma guerreira. "Também sou uma mulher de força como essa da rua. Nessa idade que eu estou, trabalho e cuido da minha casa. Para mim não tem barreira, eu continuo trabalhando, sou o esteio da família. Vale a pena a homenagem", afirma honrada em saber que muitas mulheres ilustram as ruas do seu bairro.
De mulheres fortes a generais da ditadura, Londrina tem de tudo um pouco espalhado pelas vias e espaços públicos. A história está nas placas e também entre os moradores, que acrescentam diariamente um novo conteúdo e um novo sentido a tudo. As homenagens continuam e, mais do que os nomes escolhidos, elas dizem também sobre a cidade e como interagimos com ela.


