Na Duque de Caxias, um ponto da época da jardineira
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quinta-feira, 09 de janeiro de 1997
Apolo Theodoro 
Paulo WolfgangAMEAÇADOProibição da Francovig de utilizar os pontos da zona urbana ameaça uma das paradas mais tradicionais da Cidade: o ponto localizado na avenida Duque de Caxias, entre JK e Raposo Tavares. Neste local, há 50 anos, os colonos e lavradores pegam condução para a zona rural
O marco indicando o ponto de ônibus é novo, mas o ponto em si, esse é velho, hein, muito velho! Provavelmente um dos mais antigos de Londrina. Por ali, quando a zona rural de Londrina fervilhava de gente; quando o rei Café reinava absoluto na economia local, embarcou e desembarcou, durante décadas, levas e levas de lavradores e colonos; num tempo de lama e de poeira, quando muita gente ainda chegava por aqui atraída pelos rumores de riqueza que transcediam as fronteiras do Estado, o Bar do Ponto já estava ali. Ao lado, o bar Tamarana, também. Em frente, estacionado, o ônibus da Francovig, idem. Onde? Naquele quarteirão da avenida Duque de Caxias, entre a Avenida JK e rua Raposo Tavares, área central da cidade.
Agora, através do Judiciário, querem impedir que esses usuários continuem a pegar o ônibus da Francovig não só nesse que é um dos mais tradicionais pontos de ônibus de Londrina, mas em todos os outros pontos localizados no perímetro urbano. Não é nem questão de saber quem tem razão na Justiça, é apenas respeitar um pouco a história da Cidade e dos seus moradores.
Os dois botecos do ponto, hoje, estão com novos proprietários, assim como mudaram de dono quase todos os outros pontos comerciais do pedaço. Talvez seja um reflexo do esvaziamento da zona rural que fez diminuir, em muito, o intenso movimento de antigamente. Mas é ali, sempre foi ali, o ponto daqueles que se dirigiam para a banda Sul do município; sempre foi ali o ponto de ônibus dos lavradores sem carro daquela região de Londrina.
Aos sábados, quando metade dos roceiros vinha pra cidade, aquele espaço ficava entupido de gente, gente embarcando, gente chegando - sitiantes e colonos fazendo as compras do mês. Nas imediações, a casa Viscardi, então um armazém de secos e molhados, assim como a Martins e Fernandes, eram os estabelecimentos comerciais preferidos.
E, pra facilitar um pouco a vida, a empresa de ônibus, a Francovig, ficava em frente do ponto, também na Duque que ainda não era asfaltada, não tinha duas pistas e nem avenida era: era rua, poeirenta nos tempos de seca e barrenta pra diabo nos tempos de chuva, quando só os jipes ou pneus acorrentados conseguiam subir a íngreme ladeira em direção ao centro da cidade. Isso é história.
Os anos se passaram, o perfil econômico da cidade mudou, mas o ponto dos lavradores e moradores dos distritos e patrimônios rurais da zona Sul de Londrina continuou ali no mesmo lugar onde está há cerca de 50 anos. E mesmo que não tenha o movimento de antigamente, não é difícil encontrar no local pessoas que, há decadas, se utilizam ou trabalham nas imediações do bar do Ponto, que divide as honras do embarque com o bar Tamarana.
O arrendatário Vicente de Paula, 47 anos, é um desses antigos usuários. Ele não quis acreditar quando soube que o ponto onde embarca há mais de 30 anos para o patrimônio Guairacá pode acabar. Não pode acontecer isso, não, pego ônibus aqui desde que a garagem da Francovig era aí na frente, e se acabar o ponto, vai ficar muito ruim pra nós, vai ser difícil ir até a rodoviária, os meus negócios são todos por aqui, reclama Vicente.
Cheguei em 1959 pra trabalhar no Salão do Santini, era ali adiante, e aí já era ponto de ônibus. Acabar com ele, agora, é errado. O povo tem a vontade livre, pega ônibus onde quer. Isso tá errado, o Sol nasceu pra todos, enfatiza o barbeiro Euclides Gonçalves de Araújo, 79 anos, mais conhecido como Gringo. Nostálgico, Gringo lembra da jardineira amarela da Francovig que descia a Duque de Caxias, ainda sem asfalto, passava perto de onde é hoje o Igapó e seguia, ladeada por cafezais, em direção ao tiro ao alvo, nos Três Marcos.
Morando em Londrina desde 1936 - chegou aqui nenê -, e no patrimônio da Selva a partir de 1959, a dona-de-casa Neide Moro Benis, 6l anos, se utiliza do ponto há 37 anos e não admite deixar de pegar o ônibus no local. Aqui sempre foi a saída para a Selva. É uma calamidade tirar o ponto daqui. Descer na rodoviária é muito difícil. Será que essa gente não tem dó da gente, não? Que Justiça é essa que faz o povo sofrer?, indaga Neide.
E tanto ela quanto o arrendatário Vicente de Paula querem ver se o prefeito Antonio Belinati é mesmo amigo do povo, como se autoproclama, ou se está do lado dos poderosos. O prefeito devia tomar a frente disso, é coisa pra ele resolver. O Cheida não enfrentou o Lopes? É impossível um prefeito não lutar contra isso, esse ponto não pode sair daí de jeito nenhum, reage Vicente. Queria conversar cara a cara com o prefeito e pedir pra ele ter dó dos pobres. Mas eu me lembro, ele esteve lá na Selva durante a campanha política e prometeu manter o mesmo esquema de transporte, garante Neide Moro Benis.
É esperar pra ver se Belinati vai ou não tomar partido nessa briga. Até agora, quem falou foi o seu secretário de Negócios Jurídicos, Eduardo Duarte Ferreira. E o que ele disse ontem nesta Folha - Até uma decisão posterior, temos que cumprir e exercer o poder de fiscalização para que a Francovig seja retirada das ruas - dá a entender que a Prefeitura vai ficar a reboque do Judiciário. Com isso, o tradicional ponto da Duque de Caxias, em vez de merecer uma placa do projeto Aqui tem História, vai desaparecer como local de embarque de passageiros da zona rural.


