Na carreta, a vontade de vencer o desemprego
A instrutora Iraci Clemente de Souza, 49 anos, já se habituou a vagar de cidade em cidade passando seus conhecimentos em costura industrial para toda sorte de alunos. Desde os jovens em busca da qualificação para o primeiro emprego, passando por empregados em busca de uma colocação melhor em sua empresa, até desempregados que querem facilitar a conquista de um posto melhorando o currículo.
Iraci conhece praticamente todo o interior paulista e, antes de passar por Bela Vista do Paraíso, expôs com o mesmo orgulho incontido a carreta em um evento realizado em Praia Grande, na Baixada Santista. Já está acostumada as abordagens dos curiosos de plantão, principalmente das crianças. ''As pessoas sobem a escada e logo depois de passar pela porta, normalmente soltam aquele 'nossa' de espanto quando percebem que a carreta é realmente uma escola'', conta.
Na tarde em que a Folha visitou a escola-móvel, apenas três pessoas estavam sendo instruídas por Iraci. Um deles era o desempregado Elton dos Santos de Aquino, 19 anos. Ex-bóia-fria (já cortou muita cana e colheu muita laranja na adolescência), ele está de olho nas vagas que surgem tímidas entre as pequenas confecções da cidade. ''Uma pessoa acostumada a trabalhar na roça acha tudo isso muito bonito, muito legal.''
Aquino aprendeu pouco sobre os segredos para ser um bom operário do setor. Mas as 20 horas de ''degustação'' serviram para entusiasmar o rapaz, deixá-lo com muita vontade de fazer o curso completo. ''Tem que aproveitar a chance de melhorar na vida''.
Rhaísa Pereira, uma adolescente de 16 anos com hábitos típicos da classe média, demonstrou vocação nas poucas horas de instrução. ''Já fiz muitos cursos e gosto de costura. É por isso que eu estou aqui'', conta.
A dona de casa Maria Aparecida Borges de Oliveira, 49 anos, é de uma família onde mulher sabe costurar bem. Seguindo a vocação deixada pela mãe e pela avó, ela já fez vários cursos na área e foi conferir na carreta se está atualizada em seus conhecimentos. ''Além do conteúdo, a qualidade da estrutura é uma coisa que ajuda porque atrai a gente para as aulas'', disse.
A estudante Josisleide Aparecida da Silva, 19 anos, apesar de não ter participado das aulas-demonstração, enxerga no projeto a possibilidade de muitos conhecidos da sua idade mudar a sina que abate os filhos de Bela Vista do Paraíso. ''Aqui a gente acaba o ensino médio e automaticamente já pensa em se mudar para Londrina. Muitas amigas minhas fizeram isso e ninguém acredita que pode ter um futuro profissional sem ir embora'', conta. (L.F.M.)





