Na campanha, disseram que eu tinha 3 amantes
Ao contrário das colegas, a prefeita Elza Marques Gonçalves, 46 anos, conta que sofreu discriminação nas duas vezes em que foi candidata à prefeitura. Na primeira vez, em 88, as lideranças políticas do município romperam o acordo de lançar o candidato melhor posicionado em uma pesquisa, depois que descobriram que a liderança estava com uma mulher. Fui candidata sozinha, relembra Elza. Perdi, mas não desisti. A volta por cima se deu nas eleições de 96. Elza venceu dois candidatos homens com folga, mas voltou a ser discriminada.
Aquela campanha foi horrível, recorda. Seis dias antes da votação, um panfleto apócrifo foi distribuído pela cidade tentando desmoralizar a então candidata, que liderava as pesquisas. O panfleto dizia que eu tinha três amantes e até citava o nome deles, conta a prefeita, que é solteira. Isso me choca muito até hoje. Os acusados de serem amantes da prefeita eram assessores de campanha de Elza. Só por que sou mulher não posso ter homens na minha equipe?, questiona a prefeita. Já tinha sido vereadora e não esperava que isso fosse acontecer.
Nas duas vezes em que ocupou uma cadeira na Câmara, ela não sentiu discriminação dos outros vereadores, mesmo dos adversários. Tanto é assim que fui duas vezes eleita presidente pelos homens. Nas duas legislaturas, Elza era a única mulher na Câmara. Hoje, a situação está um pouco melhor para a bancada feminina. A bancária Fátima Aiache Pegoraro, 35 anos, e a professora Maria Aparecida Barrozo, 32 anos, ocupam duas das nove cadeiras do legislativo. Fátima é a líder da prefeita na Câmara e Aparecida a vice-presidente da Casa.
As duas foram eleitas pela mesma chapa da prefeita e sentam lado a lado durante as sessões. É pura coincidência, jura Fátima. Ela faz questão de frisar que não existe nenhum movimento feminista na cidade. Na vida pública, homens e mulheres são pessoas com o mesmo objetivo, diz. Só temos o interesse de melhorar a comunidade. Já Aparecida representa o distrito de Ourilândia, que tem 4,5 mil habitantes, junto com outro vereador homem. Só no distrito, ela teve que derrotar outros três homens nas urnas.
Meus adversários diziam que eu não poderia ser vereadora porque não teria como fazer assistência social de madrugada, recorda. Em Ourilândia, que fica a 18 quilômetros da sede do município, uma das principais funções do vereador é levar os moradores para atendimento médico em Barbosa Ferraz. Muitas vezes, isso ocorre de madrugada. Para resolver o problema e não ter conflitos com o marido, Aparecida comprou um Fusca e contratou um motorista. Como a população é carente, o vereador se transforma num assistente social, conta.





