Cenas de bandidos em fuga e perseguição policial em meio a ruas movimentadas arrastam milhões de espectadores ao cinema. Na vida real, entretanto, tais ações nem sempre são sinônimo de sucesso. A empregada doméstica Vera Lúcia Alba de Melo, 36 anos, viu sua família tornar-se a maior presa do que deveria ter sido uma caça a criminosos na Área Central de Londrina.
No último dia 26, ela perdeu o marido, Valdeci Martins Godoi, 37 anos, morto depois de ter o Monza que dirigia atingido em cheio pelo veículo de uma dupla de assaltantes. Eles fugiam de uma viatura do Pelotão de Choque da Polícia Militar (PM) após ter cometido uma sucessão de roubos. No mesmo ''acidente'', a filha de Vera, grávida de três meses, perdeu o bebê e sofreu traumatismo craniano.
Esse é o resumo factual da história, mas está longe de traduzir o que aquela tarde de quinta-feira representou para a família do carpinteiro. As palavras de Vera Lúcia dão algumas pistas. ''Minha filha está na cadeira de rodas, mas posso dizer que nossa família toda ficou paralítica. Se não fosse por Deus, eu estava batendo a cabeça contra a parede'', desabafa.
Valdeci ia buscar a esposa no trabalho dela, no Jardim Hedy (Zona Oeste), quando os criminosos atravessaram seu caminho. Antes de sair de casa, ligou para Vera. ''Ele avisou que ia me pegar de carro, para me poupar de andar de ônibus. A Simone se ofereceu para ir junto porque a outra filha estava com o feijão no fogo'', relembra, emocionada.
A tragédia roubou o filho que crescia no útero de Simone, 20 anos, e interrompeu os planos de seu casamento. ''Na quarta-feira o Valdeci me disse: 'Na semana que vem vou levá-la ao cartório para casar'. Aí me acontece isso. O choque foi tão violento que minha filha teve perda de memória. Depois, veio o trauma. Os médicos recomendam que a gente nem fale no assunto com ela por enquanto'', comenta.
Simone teve alta no último domingo. Segundo a assessoria de imprensa da Santa Casa, ela sofreu traumatismo craniano e não teve o movimento dos membros inferiores comprometido; a paralisia pode ser consequência de um profundo abalo emocional.
Religiosa, a viúva define os assaltantes que bateram no carro da família como ''jovens sem ocupação, sem rumo, sem valor à vida de ninguém''. Quanto à polícia, ela acredita que a ação foi um erro. ''Quem pagou fomos nós. Eles estavam tentando fazer seu trabalho, mas não pensaram nos pais de família que estavam no trânsito. Tinham que ter comunicado mais viaturas para cercar os quatro cantos, isolar as ruas'', critica.
Com o respaldo de quem também se sente vítima da violência, Vera Lúcia diz que Londrina está desamparada. ''Falam tanto de São Paulo, mas aqui está pior. Se sua casa é assaltada e você pede socorro, a polícia fica te testando antes de mandar uma viatura. Se sai na rua, não sabe se volta. E agora, quem vai nos socorrer?'', indaga. A reportagem procurou o comando e o setor de Relações Públicas do 5º Batalhão de PM, mas não localizou ninguém na tarde de ontem.

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