Chapa nosso que estais na estrada, ajudai-nos hoje e sempre, amém, rezaria a ladainha do bom caminhoneiro que não desfazendo de São Cristovão, o padroeiro dos motoristas pede uma forcinha ao sujeito boa praça, personagem do mundo sobre rodas brasileiro. Embora não seja dado a fazer milagres, nem tão pouco favores, ele é uma ajuda importante para os que defendem o pão de cada dia na boléia. Se São Cristovão tem direito ao altar, o chapa exerce seu ministério na pedra nome dado ao ponto onde o trabalhador espera pelos motoristas.
Na sabedoria religiosa popular, o padroeiro carregou o Menino Jesus nos ombros, surpreendendo-se com o peso do garoto que, na verdade, também levava o fardo do mundo. Sessenta, 70 ou até 90 quilos: é o que o chapa sustenta nas costas. Um rosário que esse trabalhador repete diariamente, desde que pega a marmita e vai para a beira da estrada esperar pelos caminhões nas primeiras horas da manhã. Porém, muitos desconhecem o dono desse ofício, apesar de já o terem visto, espreitando na estrada por um caminhão carregado.
A catequese das estradas ensina que, ao chegar a uma cidade que não se conhece palmo a palmo, o motorista, caminhoneiro ou não, pode ter uma santa ajuda se recorrer à intercessão do taxista ou do chapa. ''O cara precisa conhecer a cidade, senão é difícil conseguir atender ao motorista, já que a maioria é de fora'', afirma Adalto Pereira, 48 anos, e que não confia só no conhecimento que tem de cabeça, mas no mapa, um curinga de todo chapa.
Ele mora em Apucarana, onde a reportagem da Folha conheceu a rotina e as histórias dos chapas que, como outros trabalhadores informais, não têm os direitos trabalhistas reconhecidos, enfrentando muitas dificuldades.
Os 15 mil quilos de uma carga grande de caminhão são divididos, geralmente, por três chapas que, por três horas de trabalho, ganham R$ 30,00 cada um. ''Não é todo dia que tem serviço. Às vezes, a gente trabalha um dia na semana e fica quatro dias parado, esperando pela carga que não vem'', conta Luís Alberto Rosa, 39 anos, o Bicudo. Aliás, todo chapa que se preze atende sempre pelo apelido.
É também pelo nome de guerra que conhecemos a história de ''Zelão'', o José do Espírito Santo, que, aos 49 anos, passou 25 deles esticando o dedo para dar sinal aos caminhoneiros, num gesto característico de todos os chapas. Ele conta que estava desempregado. Um dia, no bar, um amigo sugeriu que fosse ganhar a vida na beira da estrada. Mineiro de ''belohorizonti'', Zelão é daqueles sujeitos ''sussegados'' e de pouca conversa, mas é só a gente cutucar que abre o sorriso e começa a contar histórias.
''Já vi caminhoneiro dizer que pegou mulher na estrada e era assombração. Ele disse que atropelou a danada e ao parar para ver o que tinha acontecido, aproveitou e pegou o relógio dela. Alguns quilômetros à frente, uma mulher deu sinal para o motorista parar. Quando parou, reconheceu a vítima, que tinha voltado para buscar o relógio'', conta Zelão com ar sério, acompanhado do riso amarelo de Adalto Pereira, que mesmo de longe presta atenção na conversa.
''Sobre mulher na estrada, o que acontece mesmo é assalto. São prostitutas que chamam a atenção de motoristas e aproveitam para roubar'', comenta Pereira, complementando que a ética do chapa exige não dar muitas informações a estranhos, que podem se orientar para assaltar não só caminhoneiros, mas transportadoras.
A palavra ''chapa'' é sinômino de um cara legal. Porém, esses trabalhadores reconhecem que nem todos são gente boa. ''O defeito do chapa é quando bebe muito e não tem controle. Não somos santos, tomamos a nossa cervejinha, mas é na parte da tarde, quando já encerramos o expediente'', argumenta Bicudo.
Como outras profissões antigas, o progresso também pode ser inimigo do chapa, que disputa cargas com as empilhadeiras. O pedágio também faz com que muitos motoristas dispensem o serviço, por economia.
Apesar da concorrência, o chapa Pereira prefere continuar trabalhando na estrada. A esperança que parece demorar para entrar numa curva da estrada, abaixa os faróis do chapa Paulo Maurício Gomes, 47 anos, que se resigna ao dizer: ''A gente vive''.
Nesse trabalho, o que importa não é só a experiência. É preciso força e disposição para enfrentar o dia-a-dia. Aos 50 anos de idade, sendo 30 deles dedicados à atividade, Lairton Bologuinesi dá uma receita à base de mocotó. Para os que querem uma força extra, vale ainda acender uma velinha para São Cristovão. Afinal de contas, o chapa também sobrevive da estrada, como os motoristas e, a exemplo do santo, que ajudou o Filho de Deus a carregar o mundo, o trabalhador cumpre a sua estação da via-crucis, ajudando, literalmente, a carregar o Brasil nas costas.

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