Na boca não pode
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segunda-feira, 14 de abril de 2008
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Nada aguça mais a curiosidade de um bebê do que um objeto jogado no chão. Ou em cima de um móvel, do sofá, da cama. Depois de ''confiscar'' o objeto desejado, a primeira atitude dos pequenos é colocá-lo na boca. E a imaturidade dos reflexos, principalmente entre as crianças de um a três anos, faz com que a aspiração de algo não seja inibida só com espirros, choro, susto ou tosse.
Quando tinha dois aninhos, Caio Tumiate Gonçalves ''devorava'' tudo o que via pela frente, como contou a mãe dele, Francismara Tumiate. ''Acho que ele conhecia os objetos quando os colocava na boca, por isso sempre tivemos o maior cuidado com os brinquedos que escolhíamos para ele'', relembrou.
Mais dia menos dia, na ânsia de satisfazer a curiosidade natural que toda criança tem, Caio engoliu um imã. ''Eu estava entrando na sala quando o vi pegando o imã do porta-retratos e colocando na boca. Os olhinhos dele até fecharam enquanto engolia, deve ter sido doído'', descreveu a mãe.
Como o menino não engasgou, a reação dos pais foi levá-lo ao hospital. Um raio-x detectou que o imã estava instalado no estômago do menino e a única alternativa era esperar. ''Demorou uns dois dias para ele expelir o imã nas fezes'', recordou a mãe, lembrando que Caio ainda usava fraldas quando tudo aconteceu. ''Ele não sentiu nenhuma dor'', afirmou a mãe.
Esta foi a única vez que Caio, hoje com quatro anos, engoliu algo fora do comum e, apesar do susto, Francismara lidou com a situação com bastante calma. ''Quando se é mãe, a gente se adapta. Como eu vi que ele estava respirando normal, não me desesperei, mas fiz questão de levá-lo ao médico.''
Quando a criança engole um objeto pequeno este pode ir parar no estômago, o que raramente causa problemas, pois é expelido nas fezes, ou parar nas vias respiratórias, causando desde uma pequena dificuldade em respirar até a sufocação e total falta de ar, explicou Renata Waksman, presidente do Departamento de Segurança da Criança e do Adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria.
Segundo ela, são duas as possibilidades de obstrução: a parcial, que resulta em dor de garganta, tosse com secreção, dificuldades em falar, som respiratório diferente e chiado no peito; e a total que, além de dificultar a respiração e a fala, provoca sinais como choro sem som, palidez e depois coloração roxa, perda da consciência. ''Se não identificada a tempo, pode levar à parada respiratória.''
Dados da ONG Criança Segura apontam que em 2005 foram registrados 806 casos de mortes de crianças com até 14 anos de idade vítimas de sufocação no Brasil. A grande maioria, 586, foi de crianças com menos de um ano. Nos Estados Unidos, são 2 mil casos por ano de crianças que morrem por aspiração de corpo estranho. Fazendo a correlação populacional, no Brasil estima-se mil crianças.
Conforme o otorrinolaringologista Luis Alberto Okano, um dos sintomas de que a criança pode ter aspirado um objeto estranho é febre seguida de secreção purulenta em uma única fossa nasal. ''A criança também pode sofrer de pneumonias de repetição sem causa aparente em um pulmão só'', completou Okano, explicando que neste caso, só um raio-x é capaz de detectar o objeto, ''mas só se for de metal, porque a radiografia não detecta plástico''.
Se o objeto chega à traquéia, aos brônquios ou até aos bronquíolos, o procedimento para a retirada é ''quase cirúrgico'', comentou o otorrino. ''Às vezes o objeto pode ficar muito tempo no organismo e a criança nem sabe.''


