Mutuários querem se livrar de imóveis
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terça-feira, 16 de setembro de 1997
Paulo Ubiratan 
Londrina
Mário CésarSufocoMoradores do conjunto residencial Vale do Sol exibem faixa em protesto contra o valor do financiamento: saldo devedor de R$ 41 milO sonho da casa própria virou pesadelo para as 110 famílias que desejavam morar nos apartamentos do conjunto residencial Vale do Sol, na avenida Roberto Conceição, em Cambé. Sem saber o que fazer, já que o valor do financiamento dos imóveis aumentou em quase 100%, a maioria dos moradores está decidida a entregar os apartamentos para quem quiser. Na minha situação de desespero, devendo cada vez mais sem nunca poder amortizar o saldo devedor, estou doando meu apartamento. Pago a mudança para quem quiser assumir a dívida de R$ 41 mil, propõe o morador José Luis Alexandrino. Se não conseguirem repassar os apartamentos, os moradores tentarão rescindir o contrato com a Caixa Econômica Federal (CEF). O conjunto é formado por sete blocos, cada um com 16 apartamentos de 60 metros quadrados.
A moradora Alessandra Sabaine Gardinal afirma ter adquirido o apartamento em 1994 através da Cooperativa Habitacional Bandeirantes (Cohaban), dando como entrada a poupança de R$ 4 mil, pagando também as taxas de matrícula. Na ocasião, ela recebeu a promessa da Cohaban de que o contrato de financiamento com a Caixa Econômica Federal (CEF) seria no valor de R$ 21 mil. Primeiro fomos obrigados a esperar bastante tempo e precisamos pressionar a Cohaban para poder assinar os contratos junto à Caixa. Passaram-se mais de seis meses para que isso acontecesse. Daí fomos surpreendidos com o saldo devedor, que havia subido para R$ 40 mil, contou.
César AugustoFissura: material de má qualidade
Os imóveis foram comprados no final de 1994 e 1995. Nessa época, a Cohaban permitiu que os mutuários ocupassem os apartamentos, assinando apenas um termo de compromisso. Em meados de abril de 1996, os moradores começaram a ser chamados pela CEF para assinar os contratos. Foi quando aconteceram mais desencontros de informação entre os mutuários, a Cohaban e a CEF. A renda familiar exigida para a assinatura do contrato junto a CEF estava muito acima da pedida pela Cohaban. Parece que houve má fé, pois nós já estávamos morando no local e daí começaram a aparecer os problemas. Naquela época, se nós não quiséssemos fechar o contrato dos apartamentos com a Caixa, ficaríamos na contingência de morar na rua, disse a moradora Carla Casagrande.
Após o processo de assinatura dos contratos, os moradores descobriram que o valor dos apartamentos, ao contrário do que teria prometido a Cohaban, estava acima do preço de mercado. Eu tentei comprar o meu apartamento junto à Caixa, pagando à vista o restante do financiamento. Cheguei a conversar com a regional da Caixa em Apucarana. Fiquei surpresa quando eles não aceitaram a minha proposta. Eu tinha que continuar a pagar as prestações porque a Caixa não aceitava este tipo de negócio. Mas o que mais me revoltou foi que, na avaliação feita pela própria Caixa , o meu imóvel não valia mais do que R$ 15 mil, contou a mutuária Maria Edwirges Ribeiro.
César AugustoMaria: oferta de compra recusada
Os moradores também dizem que a estrutura e acabamento dos apartamentos são de péssima qualidade. Muitos apartamentos apresentam fissuras nas paredes. Há infiltrações de água no teto. O sistema hidráulico é constituído de material ruim. Os moradores concluem que o conjunto residencial foi feito com sobras de construções. Muitos exibem notas fiscais para comprovar gastos com reparos nos apartamentos.
O superintendente de negócios da CEF em Londrina, Claudemir Desto, afirmou que o banco apenas repassou os valores à Cohaban, não tendo nenhuma responsabilidade pelos problemas que ocorreram com os moradores do conjunto residencial Vale do Sol.
Diante destas dificuldades os mutuários devem buscar uma negociação racional junto à prefeitura de Cambé, com referência ao Imposto de Transmissão de Bens Intervivos e ao cartório de registro de imóvel para que reduza as taxas. É impossível a Caixa rescindir os contratos, pois ela não vendeu os imóveis, apenas emprestou o dinheiro. Quanto à Cohaban os moradores devem prestar uma queixa-crime de estelionato contra essa empresa, afirmou Claudemir. A Folha tentou por cinco dias falar com a Cohaban. O escritório da Cooperativa está fechado. Ninguém atende o telefone.


