Londrina - Alocados em conjuntos habitacionais distantes e sob a alegação da falta de estrutura básica para sobreviver, alguns moradores contemplados pelo programa federal Minha Casa, Minha Vida estão deixando as casas. Entre os motivos apontados pelas pessoas ouvidas pela reportagem, estão a falta de creches e escolas, poucos ônibus circulando pela região, desabastecimento de água e demora para serem atendidos por serviços como Siate.
O problema chamou a atenção de Marcelo Casanova, coordenador do projeto Galera de Deus, que oferece reforço escolar, inclusão digital e social para crianças da zona leste de Londrina. Há alguns anos ele acompanhou a mudança de várias famílias que moravam no fundo de vale dos jardins Santa Fé e Monte Cristo e do Morro do Carrapato para os conjuntos habitacionais. Agora ele vê um movimento de retorno de algumas famílias para áreas que são consideradas de risco ou de preservação permanente. "Eu vi que os barracos foram aparecendo de novo em áreas que já tinham demolido. São construções novas. Em um primeiro momento a gente questiona por que eles fizeram isso, mas conforme a gente vai se aprofundando na história, vê que cada uma dessas pessoas enfrentou uma série de dificuldades até chegar aqui", destacou.
Um casal confirmou à FOLHA que deixou o Residencial Vista Bela, na zona norte, há um mês e meio para morar em uma pequena casa no Santa Fé. Eles têm sete filhos e alegaram que o bairro na zona norte não oferece escolas creches. E ressaltam que a situação se complicava quanto precisavam buscar assistência médica. "Lá não tinha posto de saúde. A gente precisava andar 40 minutos para chegar no Chefe Newton, onde tinha o posto mais próximo. Mas como fazer isso com sete filhos?", reclamou a dona de casa de 27 anos. "A minha última filha nasceu em casa, porque a gente ligou para a ambulância às 5 horas da manhã e eles só chegaram às 7 horas." O casal admitiu que vendeu a unidade do programa federal, mas não quis dizer por quanto.

Despesas
Já uma mulher de 29 anos contou que morou no Jardim Rosa Branca (zona leste) por 10 anos e quando foi contemplada para morar no Vila Romana, também naquela região, ficou feliz. No novo bairro, ela morava em uma casa de tijolos, com luz, água encanada e banheiro, mas não conseguia sustentar os seus filhos. Ela justificou que como no bairro não havia escolas ou creches, teve que parar de trabalhar para cuidar dos quatro filhos.
"No começou eu até pegava ônibus para deixar as crianças com a minha mãe, que morava no Jardim Santa Fé, mas foi ficando muito caro. Fora isso, para fazer compras e pagar contas também precisava pegar ônibus e isso aumentava as minhas despesas", relatou. Insistiu em morar na Vila Romana por dois anos, até que chegou ao seu limite de endividamento e de paciência com o poder público que, segundo ela, falhou ao não construir as escolas e creches prometidas. Não retornou ao Jardim Rosa Branca, mas em fevereiro se mudou para o Santa Fé, onde conseguiu escola para seus filhos. Agora está trabalhando como funcionária temporária em um buffet. Disse que "repassou" o imóvel da Vila Romana para o irmão.

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