Lucinéia Parra
De Maringá
Cerca de 150 mutuários de quatro conjuntos habitacionais de Maringá e Sarandi protestaram, ontem, em frente à agência centro da Caixa Econômica Federal, contra a política do sistema financeiro de habitação. O mutuário desempregado Gerson Faustino dos Santos, 33 anos, simulou suicídio em uma forca montada em frente à agência. A simulação, de acordo com os mutuários, imita a vida real. Eles se referiam ao suicídio do aposentado Sebastião Evaristo, 67 anos, no último dia 2, em Sarandi, depois de uma tentativa de negociação sobre o pagamento das prestações atrasadas da casa própria com a Caixa.
A morte de Evaristo, de acordo com o coordenador do Movimento dos Mutuários de Maringá e Região, Claudio Roerto Timossi, revela o desespero dos mutuários que estão tentando uma negociação para o pagamento das prestações da casa própria. ‘‘O senhor Sebastião se enforcou porque ele percebeu que aposentado neste país não tem direito a nada, muito menos à habitação’’, disse.
Segundo Timossi, a Caixa está usando critérios diferenciados nas negociações com os contribuintes inadimplentes. Ele criticou o acordo que a CEF fez com uma mutuária de Paiçandu, garantindo a ela o direito de quitar a dívida de R$ 20 mil por apenas R$ 340,00. ‘‘O superintendente da CEF está usando dois pesos e duas medidas para negociar as dívidas com os mutuários. Em novembro do ano passado o superintendente chamou a imprensa para posar de bonzinho e mostrar que estava aberto a negociação. Ele permitiu que a mutuária quitasse a casa por R$ 340,00, mas não abre o mesmo tipo de negociação com os demais mutuários’’, reclamou.
Os manifestantes querem que a Caixa adote critério único para negociar as dívidas dos mutuários. ‘‘Há quatro meses estamos tentando uma negociação com a superintendência da Caixa, mas ninguém nos recebe’’, afirmou Timossi.
O superintendente da Caixa em Maringá, Gilmar Falquetto, disse ontem que a instituição está aberta a negociação. Ele explicou que o desconto concedido à mutuária de Paiçandu foi possível graças a um decreto baixado pelo governo federal. Pelo decreto, todos mutuários que têm prestações de até R$ 25,00 podem quitar a dívida da casa própria pelo valor correspondente a cinco vezes o valor da prestação. ‘‘Cada contrato tem uma característica diferente, por isso a Caixa não pode generalizar o acordo com todos os mutuários’’, explicou. Segundo ele, a Caixa não faz negociação especial com mutuários desempregados e as ordens de despejo dos inadimplentes não serão suspensas, a menos que os mutuários entrem em acordo para a renegociação da dívida.
A Caixa realizou em 1998 e 99 cerca de nove mil renegociações das dívidas com mutuários que estavam inadimplentes. No Conjunto Sol Nascente, onde moram a maioria dos manifestantes, Falquetto informou que a Caixa renegociou 311 contratos de um total de 386. No mesmo bairro, criado há cerca de 10 anos, a Caixa já retomou 44 casas e 40 processos estão sendo executados. Atualmente, a Caixa tem 18.518 contratos de financiamentos em Maringá e nos 129 municípios da região. Desse total, 30,45% estão inadimplentes.