Sai o uniforme escolar, entram roupas velhas, manchadas de tinta. As mãos que seguravam lápis e cadernos, agora empunham lixas e pincéis. Nos corredores, ouve-se exclamações como ''me passa aquela lata!'' e ''preciso da escada!''. Cenas como essa foram comuns nos últimos dois dias, dentro do Colégio Estadual Professora Ubedulha de Oliveira, no Conjunto Luiz de Sá (zona norte de Londrina). Durante esse curto período, centenas de alunos foram convertidos em pintores e marceneiros, como parte de um mutirão de limpeza e reforma das 17 salas de aula da escola.
Os trabalhos estão inseridos na tradicional gincana do colégio, que também promove provas e atividades esportivas. Para competir, os 1,7 mil alunos dos ensinos Médio e Fundamental se dividiram em equipes de 100 jovens cada. Mesmo antes de conhecer o resultado da gincana, todos já tinham a certeza da vitória: ganhariam salas limpas, paredes pintadas e carteiras renovadas. Tudo com os próprios esforços e a custo financeiro mínimo.
A aquisição do material também foi parte da gincana, levando alunos a percorrerem o comércio pedindo latas de tinta, verniz, pincéis e outros instrumentos. A colaboração aliviou as contas para a direção do colégio, que arcou com apenas 15% do custo total da reforma. O diretor Willis Polli acredita que, sem o mutirão, o colégio teria de desembolsar de R$ 3 mil a R$ 4 mil. ''A escola não teria recursos para custear essa reforma, e o Estado também não faz esse repasse'', observou.
Realizado há cinco anos no colégio, esse tipo de mutirão já provou ter valor pedagógico. Segundo Polli, a cada ano os alunos estão se tornando mais conscientes da necessidade de conservar o patrimônio escolar. ''Eles vão sentindo a dificuldade que é consertar os danos provocados por eles mesmos. Tanto que, no ano passado, não precisamos fazer o mutirão, porque não havia tantos estragos'', justificou. Por estragos entenda-se, por exemplo, pichações nas paredes, riscos e chicletes grudados nas carteiras.
''Isso aqui estava horrível! Era bom que houvesse um monitor em cada pavimento do colégio, para cada vez que alguém sujasse fosse imediatamente obrigado a limpar'', sugeriu o aluno Gilmar Oliveira dos Santos, 16 anos, enquanto passava argamassa na parede de uma sala de aula. Falta de técnica não foi empecilho para a realização das reformas. De acordo com o professor Josimar Melo do Prado, uma boa parte dos alunos já tinha noção de como trabalhar, e os outros aprenderam rapidamente. ''Eles têm um grande incentivo, que é o prazer de vencer a gincana e ganhar um ambiente agradável para estudar'', assinalou.
Garantir a harmonia dentro dos muros é uma forma de compensar a violência externa, da qual a escola já foi vítima em mais de uma ocasião. Em junho, o colégio foi roubado três vezes, o que provocou protestos em frente ao 5º Distrito Policial (zona norte). Ontem, um homem foi morto a alguns metros da escola. ''É bem melhor estar aqui, trabalhando e ajudando a conservar a escola, do que ficar na rua fazendo bobagem. Conservar para nós e, futuramente, para os nossos filhos'', concluiu o aluno Luciano Gonçalves Coelho, 19 anos.

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