Às seis da manhã de ontem, quando a maioria dos habitantes de Bandeirantes (34 km a leste de Cornélio Procópio) dormia sob seu silêncio de cidade pequena, as famílias da Vila São Pedro, bairro mais pobre do município, despertaram com o barulho de viaturas que traziam cerca de 100 policiais. Em poucos minutos as ruas estreitas e sem asfalto estavam tomadas por homens, mulheres e crianças ainda vestidos com trajes de dormir, em cujas faces via-se susto, curiosidade e, por vezes, revolta.
  As reações foram provocadas pela operação que reuniu 80 policiais militares e 30 policiais civis cooptados em cerca de 10 municípios. Foi a primeira experiência oficial do programa batizado ‘‘Mutirão contra o Crime’’. Na definição da polícia, essas operações têm como finalidade combater a violência em toda a região compreendida pelas subdivisões de Cornélio Procópio e Jacarezinho, unindo forças para suprir a falta de policiais em cada cidade. As ações devem se repetir em outras cidades.
  Segundo o delegado de Bandeirantes, Oswaldo Domingos Lotti, a Vila São Pedro foi escolhida com base em investigações e denúncias, que culminaram na expedição de 34 mandados judiciais de busca e apreensão. Os policiais partiram à procura de armas, drogas, objetos ilícitos e foragidos da Justiça. Mas o foco principal era encontrar produtos saqueados de vagões da América Latina Logística (ALL), que caracterizam um crime freqüente nas proximidades da vila, de acordo com Lotti.
  ‘‘Os criminosos têm furtado combustível e outras cargas da ALL, seja com os trens parados ou em movimento. Na semana passada, o alvo foi um trem com 58 toneladas de arroz. A empresa colocou segurança para coibir os saques, mas não está vencendo’’, explicou o comandante da Polícia Militar (PM) de Bandeirantes, capitão Wanderley da Silva Castro.
  Arroz, por sinal, foi a mercadoria que mais se avolumou entre as apreensões feitas durante a operação na Vila São Pedro. Só na casa do desempregado Márcio Antônio de Paula, 27 anos, a polícia encontrou nove sacas de 50 quilos. Ele mesmo ajudou a carregar os grãos até as viaturas da polícia. E garantiu que não faz parte de nenhuma quadrilha e que levou o arroz para consumo próprio, dos dois filhos e dos três irmãos. ‘‘Daria para comer durante um ano. A gente anda meio sem serviço e a renda não passa de R$250,00’’, comentou.
  Não deixa de ser emblemático que um alimento tenha sido o principal item apreendido num bairro que parece abandonado pelas políticas públicas. Para o morador Pedro Isael Honório, 50 anos, que teve a casa revistada, a polícia não distingue pobreza de marginalidade. ‘‘Quando saio para estudar o supletivo à noite, sempre sou abordado por uma viatura. E hoje (ontem), invadiram minha casa às 6 da manhã, aos gritos, e não pude nem me defender’’, denunciou Honório, que diz ser conhecido pelo trabalho com adolescentes em situação de abandono.
  ‘‘Participei de uma reunião na Câmara Municipal recentemente em que sugeri a instalação de uma polícia comunitária. É justamente para ela saber quem é bandido e quem é ladrão, e não humilhar pessoas só por morarem na Vila São Pedro’’, apontou. Minutos depois de conversar com a reportagem, Honório foi levado à delegacia ‘‘para averiguações’’ por não ter apresentado a nota fiscal de um aparelho de som. Outras 15 pessoas foram detidas pela mesma razão e liberadas em seguida. Conforme o delegado de Bandeirantes, os moradores que estavam de posse das sacas de arroz também foram liberados. Dois foram presos em flagrante por furto e porte ilegal de munição.
  A centena de policiais deixou a vila por volta das 9 horas, sob os olhares intrigados das crianças. Antes, uma pequena menina abordou os policiais com uma pergunta singela a respeito das gaiolas de aves apreendidas em uma residência do bairro: ‘‘Por que vocês estão levando os passarinhos embora?’’. ‘‘Porque não pode’’, respondeu o policial, com delicadeza. De asas quebradas, a menina assistiu aos carros partindo.

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