O ano letivo de 2017 já começou, mas ainda é possível iniciar os estudos
O ano letivo de 2017 já começou, mas ainda é possível iniciar os estudos | Foto: Fabio Alcover/21-02-2017



Iniciar os estudos ou voltar à escola após anos ou décadas longe dos livros e cadernos requer muita coragem, força de vontade e disposição. É preciso contornar uma série de dificuldades, como a vergonha, o orgulho, o preconceito, o pouco tempo livre, o cansaço e até as más recordações. Muitos dos que chegaram à terceira idade quase sem nenhum estudo ainda guardam na memória uma época em que os professores repreendiam os erros de seus alunos aplicando a eles castigos dolorosos. Na hora de considerar a possibilidade de retomar os estudos, tudo isso pesa na decisão e muitos desanimam antes mesmo de tentar.

Neste domingo (5), um grupo de cerca de 35 professores e funcionários da Secretaria Municipal de Educação realizou um mutirão para divulgar a Educação de Jovens e Adultos (EJA), que oferece ensino do 1º ao 5º ano escolar. As abordagens foram feitas na feira livre da Avenida Saul Elkind, na zona norte, a região mais populosa de Londrina.

Durante as abordagens, muitos demonstraram interesse e forneceram nome, endereço e telefone para que os responsáveis pela EJA no município possam entrar em contato posteriormente e tentar convencê-los a voltar para a escola. Mas de um grande número deles o que os participantes do mutirão ouviram foram frases como "já tenho o suficiente para a minha idade" e "estou velho para aprender". Odete Rosária Bernardes, de 85 anos, estudou apenas até o 2º ano, mas diz que não tem mais disposição. "Eu canso muito. Não tenho tempo e não quero estudar mais, não."

Para tentar desconstruir crenças como essas, é preciso ter sensibilidade e disponibilidade para ouvir muitas experiências de vida. "Sempre vem junto com a fala uma história de vida prejudicada", disse a coordenadora da EJA em Londrina, Deborah Flora Barbosa dos Santos. "O que fazemos aqui é a valorização do ser, a valorização da pessoa na sua plenitude. Temos alunos que passaram pela EJA e que hoje já estão na faculdade."

Na lista de potenciais novos alunos, as mulheres foram a maioria. Dos 14 nomes anotados pela dupla de professoras da EJA Celeste Maria Mendes Pimenta e Aparecida da Silva Barbosa Cavaleto, cinco eram masculinos. E o mesmo acontece nas salas de aula, o que permite duas conclusões, segundo as professoras. Quando jovens, o abandono escolar entre as mulheres é maior porque cabe a elas os cuidados com a casa e com os filhos e, na dificuldade de conciliar a vida doméstica com os estudos, este acaba ficando em segundo plano. Mas são elas também que têm maior capacidade de dominar a vergonha, o orgulho e o preconceito para poderem recomeçar os estudos na vida adulta. Na turma de Celeste, são nove mulheres e dois homens. Na de Aparecida, são 17 mulheres na sala de aula e homens, apenas três. "Os homens são muito mais orgulhosos. Eles têm muito mais dificuldade e resistência a retomarem os estudos", analisou Aparecida.

BUSCA ATIVA
Segundo Deborah, Londrina tem 18 mil pessoas que não sabem ler nem escrever e a maior parte delas é formada por idosos. Com ações como a realizada na zona norte, a Secretaria de Educação espera reduzir a população de analfabetos gradativamente, até que não existam mais pessoas nessa condição vivendo no município. Após a abordagem nos bairros, os funcionários da Educação entram em contato com aqueles que deixaram seus nomes na lista e tentam conquistar novos alunos, convencendo-os de que sempre é tempo de retomar os estudos. Em fevereiro deste ano, foram feitos dez chamadas pontuais, que se reverteram em cerca de 40 novas matrículas na EJA. O município fechou o ano de 2016 com mais de 1.230 jovens e adultos matriculados nessa modalidade de ensino.

"Fazemos a busca ativa, que é ligar para aqueles que estão matriculados e deixaram de frequentar as aulas, visitamos as pessoas que nos são indicadas pelos nossos próprios alunos, temos uma parceria com o Tribunal Regional Eleitoral para saber onde estão os nossos potenciais alunos e fazemos as chamadas pontuais", comentou Deborah.

O ano letivo de 2017 já começou, mas ainda é possível iniciar os estudos. Das 86 escolas da rede municipal de Londrina, 33 têm EJA, 28 na zona urbana e quatro na zona rural. Para saber qual escola mais próxima oferece o curso e os horários das aulas, é preciso entrar em contato com a Secretaria de Educação, pelo telefone (43) 3375-0215, de segunda a sexta-feira. A EJA é destinada a alunos a partir dos 15 anos de idade e, para fazer a matrícula, basta apresentar a conta de luz e um documento de identificação com foto. As aulas e o material didático são gratuitos.

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