Mutirão beneficia paranaenses que não têm documento
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quarta-feira, 17 de junho de 1998
Benê Bianchi 
O corregedor Oto Luiz Spanholz sempre achou exagerada a estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de que há, no País, cerca de 40 milhões de cidadãos clandestinos - aqueles que não têm nem sequer um documento que prove sua existência. Mas após participar do Mutirão da Cidadania, no município de Pitanga (88 km ao norte de Guarapuava), começa a rever sua posição.
O mutirão foi realizado em abril e, em apenas dois dias de trabalho, foram feitas 801 certidões de nascimento, sendo que 80% para homens trabalhadores rurais, e 2.022 carteiras de identidade. Tiramos mais de 800 pessoas da clandestinidade, comemora ele.
Neste final de semana, o mesmo trabalho será realizado em Bela Vista do Paraíso (40 quilômetros ao norte de Londrina). Além da certidão de nascimento e da carteira de identidade, em Bela Vista também serão emitidas carteiras de trabalho.
O Mutirão da Cidadania é uma iniciativa da Corregedoria Geral da Justiça em convênio com a Federação da Agricultura, Serviço Nacional de Aprendizagem Rural do Paraná, sindicatos rurais e secretarias da Justiça e da Segurança Pública. No caso de Bela Vista, participa também o Ministério do Trabalho, por intermédio da Delegacia Regional do Trabalho.
O corregedor informa que o mutirão também deve ser realizado em Londrina. O reitor Jackson Proença Testa o procurou para colocar as instalações da Universidade Estadual à disposição para o trabalho.
Um dos casos que mais chamou a atenção do corregedor Oto Spanholz durante o mutirão em Pitanga foi o de uma senhora de 78 anos que nunca havia tido uma certidão de nascimento. Ela pegou o documento e guardou numa sacolinha de plástico, lembra o corregedor.
O corregedor é contra a lei federal que garante a gratuidade das certidões de nascimento para todos os cidadãos. Revolta-me ver uma pessoa encostar um carro importado na frente de um cartório e não pagar nada pela certidão. É preciso ter parâmetros para o acesso ao benefício. Quem pode pagar, deve pagar. Segundo ele, a certidão só beneficia os mais esclarecidos.
Spanholz não quer ser tido como advogado dos cartórios, mas defende uma revisão na lei. Tanto que uma comissão presidida por ele está estudando a possibilidade da elaboração de uma minuta de projeto de lei, em nível estadual, para fazer propostas e aplicar a legislação no Paraná.
O corregedor adianta que há duas possibilidades. A primeira seria propor que o Poder Executivo assuma a responsabilidade pelo pagamento dos registros de nascimento e óbito de pessoas carentes. Para os não carentes seria estabelecida uma taxa. A segunda possibilidade seria oficializar os registros civis no Estado (tornar os cartorários funcionários públicos, com salários pagos pelo governo).
O corregedor diz que todos os custos pela emissão das certidões de nascimento são absorvidos pelos cartorários. O governo não gasta um tostão com isso. Ele explica que todos os cartórios estão sob a tutela da Corregedoria, que tem a função de zelar pelo bom funcionamento e bom atendimento à população. Nossa luta é que os cartórios sejam mantidos abertos. O que adianta dar gratuidade aos carentes, se eles não tiverem onde pedir suas certidões próximos as suas casas?
Segundo o corregedor, hoje estão em processo de declaração de extinção, por lei, cerca de 30 cartórios localizados em distritos. É um contra-senso. Para retirar suas certidões gratuitas, os carentes que moram longe terão que gastar com alimentação e transporte.
A lei que instituiu a gratuidade para todos nas emissões de certidões de nascimento entrou em vigor em 11 de março e é classificada pelo corregedor como uma lei capenga. Havia um artigo que previa a criação de um fundo, com a participação dos demais cartórios, para pagamento dos atos de registro civil. O artigo, no entanto, foi vetado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.


