Música para relembrar as origens
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sexta-feira, 13 de novembro de 2015
Rafael Souza<br>Reportagem Local
Quando saiu de casa para assistir a uma apresentação com músicas da época da adolescência, a dona de casa Benedita de Faria Coutinho, de 68 anos, já sabia que teria uma tarde diferente. "É como se a gente voltasse no tempo, traz de volta à memória um momento muito bom da minha vida. Lembrei das quermesses, das festas, dos casais passeando na praça de mãos dadas. Foi uma tarde maravilhosa", contou.
E olha que não foi a primeira vez que a simpática senhora presenciou a apresentação do projeto "Aceita uma Canção", que leva intérpretes caracterizados com trajes de época aos centros de convivência do idoso de Londrina. Iniciado neste ano, o projeto tem como objetivo levar músicas das décadas de 40, 50 e 60 e outras canções de domínio público a grupos de idosos. O programa é uma ação da Secretaria Municipal do Idoso e tem apoio da Secretaria de Cultura, por meio do do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic).
Na apresentação de ontem, a última do ano, realizada no Centro de Convivência do Idoso (CCI) do Jardim Bandeirantes (zona oeste), pouco mais de 30 idosos cantaram para relembrar as origens. "Essas músicas eram sucesso nas rádios, nos bailes da nossa época de jovens. E hoje já mudou tudo, as músicas perderam um pouco o sentido, tem muita malícia nas letras, até mesmo as sertanejas que antes falavam mais de coisas da vida na roça mesmo", comparou dona Benedita.
Durante pouco mais de uma hora, a aposentada Sebastiana Batista Pereira, de 71 anos, cantou e contou ter deixado todas as preocupações de lado. "Fiquei viúva há cinco anos, meus filhos estão todos casados, e tenho que viver. Gosto muito de participar, cantar, de fazer amizade. Hoje mesmo conheci uma senhora e já fiquei amiga dela, achei maravilhoso isso. Também faço parte do grupo de dança. Quero continuar aproveitando a vida, pensando e fazendo coisas boas", disse.
A apresentação é toda pensada para fazer o idoso participar ativamente. São eles mesmo que montam o repertório - composto por mais de 60 canções - e ainda são incentivados a escolher a ordem durante o show, quando uma das cantoras se aproxima de uma pessoa da "plateia" e diz: "Aceita uma canção", apresentando também uma caixa cheia de números, que correspondem cada um a determinada música. A banda ainda fornece aos idosos um caderno com as letras das músicas para que eles possam cantar juntos.
E dona benedita cantou praticamente todas, mas algumas foram bastante especiais. "A Sertaneja é demais, é uma música bem conhecida. Flor do Cafezal também é linda, Acorda Maria Bonita. São todas músicas que marcaram e é muito bom poder relembrar", destacou.
Além destas, fizeram parte do repertório "Alecrim" (canção de domínio público), "A Muié do Seo Mané" (Jacó e Jacozinho), "Carinhoso" (Pixinguinha e Braguinha) e "Chuá Chuá" (Pedro Sá e Ary Pavão). Um verdadeiro deleite para quem se encanta com música. "É uma apresentação muito bonita, adorei. Toda vida fui apaixonado por música, mas infelizmente não pude seguir carreira porque minha vida foi muito dura, de muita luta", revelou o aposentado Antônio Fernandes Maricato Neto, de 86 anos, que tem dezenas de composições e poesias de autoria própria.
Além dos CCIs, a banda responsável pelo projeto também se apresenta em residências, para idosos impossibilitados de sair. "É muito importante para eles fazer esse resgate da música esquecida, principalmente para a memória emocional do idoso, que é muito saudosista. E a gente acaba de emocionando junto. Já fizemos apresentação para apenas uma pessoa e foi muito forte", lembrou a cantora Elaine Oliveira de Souza.
"São momentos que repercutem por dias, semanas e até anos na vida de cada um deles, muda comportamento, traz alegria, enfim, é socialização", definiu a gerente de articulação comunitária do CCI do Jardim Bandeirantes, Maria Angela Santini.