''No Brasil, há muita gente sem educação, que não sabe respeitar os outros e que é desumana. Há crianças que estão nas ruas, aprendendo e fazendo o que não devem. Se estivessem na escola, aprenderiam mais coisas e poderiam ser pessoas melhores''. Dito assim, com pompa de gente grande, parece discurso de algum entendido em educação, segurança ou assistência social. Nada disso. O raciocínio é de Pedro Vasconcelos, oito anos, aluno da 3 série do Ensino Fundamental.
A colega dele, Dominique Hemmel dos Santos, também opina: ''Se essas crianças que estão nas ruas estivessem na escola, não ficariam grávidas tão cedo e nem se casariam tão novas. Elas não teriam tanto tempo para namorar e ainda aprenderiam a ter respeito e amor ao próximo''. Os dois fazem parte do universo de 11.211 estudantes da rede pública municipal de ensino de Apucarana que estudam em tempo integral. Entram na escola às 7h30 e saem às 16h30 e têm provado que a opção por investir em educação faz reduzir índices de criminalidade e doenças entre os pequenos.
''Aqui eles têm diversas atividades: aulas de línguas, ciências, artesanato, esportes, empreendedorismo'', resume a diretora da Escola Municipal Dr. Joaquim Vicente de Castro, Myrlei Aparecida de Oliveira Casini. O sistema integral foi implantado no município em 2001 e vem comprovando que os gastos com pessoal e refeições, apesar de parecerem altos, ainda são menores que aqueles empenhados para recuperar um adolescente infrator (ver box). ''Além do bom desempenho em avaliações nacionais e estaduais, percebemos que a violência e os gastos com saúde diminuíram aqui em Apucarana, porque essas crianças são assistidas com atividades formadoras e três refeições diárias'', analisa o secretário de Desenvolvimento Humano - pasta que engloba a educação -, Cláudio Aparecido da Silva.
Ao todo, são 37 escolas e 531 professores na rede municipal. Na escola de Pedro e Dominique são 30 funcionários, sendo 21 professores. ''Há também os estagiários que são contratados em parceria com o Centro Integrado Empresa-Escola (Ciee). Eles dão oficinas de esporte e outras atividades'', ressalta a diretora. No dia em que a reportagem visitou o colégio, uma turma fazia uma saborosa salada de frutas, outros se entretinham na produção de belos tapetes em crochê e mais duas turmas se dividiam entre o vôlei e o taekwondo. Coincidência ou não, nenhuma briga.
Anualmente, a escola organiza uma feira onde são comercializados os produtos feitos pelas crianças. A renda é revertida em investimentos na própria instituição. ''Compramos materiais que faltam para o artesanato ou para a culinária, além de realizarmos pequenas reformas'', diz a coordenadora do período integral na escola, Heliana Portolese Silva. Ela e a diretora comemoram a construção de uma Casa de Bonecas, viabilizada com o dinheiro da feirinha. ''Além disso, esses alunos aprendem um trabalho que é renda para a família. Tivemos o caso de um menino cujos pais ficaram desempregados e ele produzia panos de prato e outros produtos para vender. Foi o sustento da família por uns meses''.
Experiência semelhante a de Apucarana também se revela bem sucedida em Porecatu (85 km ao norte de Londrina). São 157 professores e 86 estagiários que trabalham nos dois turnos atendendo 1.700 alunos. ''Em dois anos, incluindo o projeto piloto, conseguimos reduzir o índice de repetência de 31% para 14%. Além disso, a Polícia Militar nos enviou um documento, no final do ano, que aponta que em 2006, foram registrados apenas seis ocorrências envolvendo menores de até 12 anos, que é o nosso público. Prova de que o tempo integral está tirando essas crianças das ruas'', enfatiza a responsável pelo Departamento de Educação do município, Risoleta Araújo Paduan.
Lá são sete escolas, onde os estudantes fazem três refeições diárias e têm aulas de artesanato, literatura, língua estrangeira, ginástica rítmica, flauta, formação religiosa ecumênica, dança, fanfarra e outras diversões pedagógicas. ''O fato destas crianças se alimentarem nas escolas fez diminuir as consultas médicas e o cansaço que elas chegam em casa fez cair o índice de crianças nas ruas à noite. O Conselho Tutelar nos informou que o número de jovens dormindo nas ruas diminuiu em 50%''.
Diante dos índices animadores, o secretário de Apucarana, Cláudio Silva, faz uma ressalva à implantação do sistema integral. ''É preciso destacar apenas que esse modelo de ensino não é novo. Ninguém inventou a roda. Apenas no Brasil ele não é aplicado como poderia ser feito se a educação fosse pensada como prioridade. Em muitos outros países, é o único sistema que existe e então se percebe como o investimento em educação faz diminuir outros gastos públicos''.

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