Dezenas de ônibus chegam diariamente a Londrina, trazendo pacientes de baixa renda que não dispõem de tratamento médico adequado em suas cidades. Com o dinheiro já comprometido com o alto custo de medicamentos, muitas dessas pessoas passam apuros durante sua permanência longe de casa, sem lugar para dormir ou até mesmo sem comer.
Foi para evitar dramas assim que, em 1999, o Ministério da Saúde (MS) baixou a Portaria nº 55, que dispõe sobre o chamado Tratamento Fora de Domicílio (TDF). Ela estabelece que o poder público, através das prefeituras ou regionais estaduais de saúde, banque as despesas com diárias, transporte e alimentação para pacientes que já esgotaram as possibilidades de tratamento nos municípios de origem desde que a distância seja superior a 50 quilômetros. Não adiantou. Por um lado, a grande maioria dos pacientes ignora o direito; por outro, os municípios não cumprem a determinação.
Em uma visita ao Centro de Apoio Esperança, Organização Não-Governamental (ONG) que dá assistência a usuários do Hospital do Câncer de Londrina (HCL), é possível ter uma mostra do quão importante seria a ajuda de custo a pacientes que vêm de outras cidades. Com parcos recursos, o centro concede abrigo e alimentação a 80 pessoas por mês, em média, oriundas de 127 municípios da região. As informações são da presidente da ONG, Iracema Ferreira dos Santos, que há dois meses iniciou uma maratona de contatos com secretários municipais de saúde, na tentativa de fazer valer a portaria do MS.
''A resposta que recebo dos secretários é que eles desconhecem a portaria. Mas nós sabemos que o Brasil é o país do descaso e dos oportunistas, e que se esse pessoal carente não for atrás do dinheiro a que tem direito, ele vai parar no bolso de alguém'', sentencia a presidente. Ela afirma que já recomendou a vários dos pacientes atendidos pela ONG que solicitem o benefício em seus municípios, mas que eles também não tiveram sucesso.
O centro de apoio é procurado por pessoas que precisam de lugar para dormir ou simplesmente alimentação, no caso daqueles que retornam às cidades de origem no mesmo dia. De acordo com Iracema, um paciente que usufrui de todo o serviço de albergue dá uma despesa média de R$ 10,00 por dia, incluindo cinco refeições. O problema é que, enquanto alguns permanecem somente alguns dias, outros chegam a ficar no local por até dois meses. Segundo a presidente, a ONG chega a gastar R$ 1,6 mil por mês só com comida.
A ajuda voluntária foi a salvação da dona-de-casa Neusa Silva, 49 anos, de Cornélio Procópio. Vítima de um tumor no colo do útero, ela iniciou tratamento no HCL no final do ano passado e, há um mês, passou a frequentar o albergue. Todos os dias, ela vem para Londrina em um ônibus da prefeitura de Cornélio: sai às 5h15 e só retorna à tarde. ''Se eu não tivesse conhecido a casa ficaria muito difícil comer. Estou me tratando e não posso trabalhar. Se tenho algum direito, vou correr atrás'', comenta.
Um desses direitos, previsto na portaria federal, é a cobertura dos gastos de um acompanhante, além do paciente. Se fosse cumprido, o benefício aliviaria as despesas da aposentada Maria Mossanbani, 76, de Bandeirantes (34 km a leste de Cornélio Procópio) que há três semanas permanece na casa de apoio, sempre com um familiar. ''Não temos parentes aqui, nem ajuda voluntária na nossa cidade'', justifica a filha da paciente, Rosirene, 30.
Morador de Jacarezinho, o aposentado Adilson Santos, 65, faz do albergue sua casa, de segunda a sexta-feira. Faltando duas sessões de quimioterapia para concluir o tratamento contra câncer de próstata, ele diz que jamais pensou ter direito a alguma ajuda de custo do município. ''Nem remédio a gente enconta no posto, às vezes. Com salário de aposentado, se não pudesse dormir aqui, ficaria a mercê da sorte'', observa.

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