Curitiba- O trabalho escravo não pode ser visto de forma pontual. É preciso perceber que o problema está interligado com a sociedade inteira. Mostrar essa visão foi o objetivo da oficina sobre trabalho escravo para juízes, no Tribunal Regional do Trabalho, da 9 Região, realizado em Curitiba.
De acordo com um levantamento feito pela ONG Repórter Brasil, em parceria com o Ministério do Trabalho, 3% (521) de 17.318 mil trabalhadores libertados, entre 2003 e 2008, nasceram no Paraná, e 1,7% (294) deram o Estado como local de sua residência. Os números são baseados nas informações do seguro-desemprego, alicerce da pesquisa da ONG. Desde 2003, pessoas resgatadas de condições degradantes passam a receber o benefício.
''Se continuarmos apenas com a repressão não estaremos dando o estímulo correto ao mercado'', afirmou o juiz paulista Marcus Berberino, coordenador da capacitação. A ideia de ''estímulo correto'' apresentada aos juízes é mostrar a eles que punições mais rigorosas a empregadores flagrados com trabalhadores escravizados em suas áreas são necessárias, como o aumento no valor das multas.
''É preciso elevar as sanções. Bancos públicos se comprometerem a não financiar empregadores que estão na 'lista suja''', exemplificou o secretário-executivo da Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo, órgão ligado ao Governo Federal, José Guerra.
Há duas fazendas na ''lista suja'' da fiscalização no Paraná. As regiões das das áreas não foram divulgadas. Entretanto, segundo o coordenador da ONG Repórter Brasil, o jornalista Leonardo Sakamoto, Cerro Azul (97 km ao norte de Curitiba) e Irati (135 km ao norte de União da Vitória) estão na lista da Comissão Pastoral da Terra de municípios onde há mais casos de resgate de trabalhadores em condições análogas a escravidão. A primeira está em 42 posição e a segunda está em 54 na lista onde há 439 cidades do País.
No Paraná, entre 1995 e 2008, de acordo com Sakamoto, 673 pessoas foram libertadas. Em 2007, foram 129 e, em 2008, 398. ''Não quer dizer que está aumentando o trabalho escravo. Pode significar que aumentou a fiscalização'', disse o jornalista. No Brasil inteiro foram libertados 35 mil pessoas no mesmo período.
As cidades em que há mais registros do resgate são as paraenses Félix do Xingú, Marabá e Dom Eliseu. Essa relação não é um ranking onde há mais incidência de trabalho escravo.
Para acabar com essa exploração, segundo Guerra, há fiscalizações pelo Brasil inteiro, realizadas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), Polícia Rodoviária Federal (PRF) e Polícia Federal (PF). Contudo, Guerra e Barberino acreditam que outra ponta da luta contra a escravidão é a reinserção das pessoas resgatadas, além de mais rigor nas sanções, fiscalização e mudança do mercado. ''No Pará, um juiz reverteu a multa do empregador para a criação de um centro de reintegração de egresso da escravidão'', contou Guerra.

Escravidão contemporânea
Segundo Guerra e Barberino, a escravidão hoje não está ligada à perda da liberdade como a história relata, mas sim com a perda da dignidade. O perfil do trabalhador explorado é homem, com 18 a 44 anos, em pleno vigor físico e com educação pequena ou zero. As características principais da escravidão são o trabalho forçado, jornada de trabalho muito longas e a degradação. ''Mas há ainda aqueles que trabalham obrigados por dívidas'', enfatizou.

mockup