Você pensa que é mole ficar isolado numa selva sem nada para comer? Foi esse o desafio enfrentado por 9 mulheres, tenentes e sargentos, do QFO-Quadro Feminino de Oficiais da Aeronáutica, durante os 4 dias e meio que permaneceram isoladas na mata Atlântica da Ilha Grande/RJ fazendo o que os aeronautas chamam de Exercício de Sobrevivência na Selva.
E, no comando deste grupo pioneiro, estava a londrinense Laura Suely Cavalcante Marcolino, 32 anos, 1º tenente do QFO. Psicóloga formada pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Laura está comemorando o fato como grande conquista da mulher e se diz pronta ‘‘para realizar outras tarefas até mais ousadas que esta’’.
Quando foram deixadas na mata, no 14 de outubro passado, elas tinham acabado de concluir o treinamento, de uma semana, na Academia da Força Aérea (AFA), em Pirassununga (SP). E nem precisaram tomar uma 51 para adquirir coragem e entrar floresta adentro.
Elas estavam preparadas. No treinamento, tiveram noções de ofidismo para lidar com cobras e outros peçonhentos; de primeiros socorros; aprenderam a fazer nós e amarrações, cobertas e abrigos. Armadilhas e instruções para caça e pesca, além de aprender a limpar e a preparar os bichos, também fizeram parte do aprendizado. Sem contar que aprenderam a se camuflar e, claro, a como se orientar dentro da mata.
Mas, para enfrentar os perigos de uma floresta, é preciso, além de treino, apetrechos. E elas tinham, cada uma, uma pistola de 9 mm, uma cartucheira Galgio/36, uma faca média, uma bússola, cantil e porta cantil, lanterna, apito, fósforo ou isqueiro, canivete e um embornal com marmita e talheres articulados. Além disso, 6 facões e duas machadinhas completavam a carga. De roupa, apenas uma camiseta e o ‘‘décimo’’, que é o nome que dão ao uniforme camuflado.
E, apenas com sal e sem nenhum alimento na bagagem, lá foram elas mata Atlântica adentro. ‘‘Na Selva, a primeira coisa a se pensar é no abrigo’’, ensina Laura, destacando que o grupo suou muito e deu muita risada quando foram montar a tenda árabe: ‘‘Tentamos subir na árvore para amarrar a corda da barraca, ninguém conseguiu subir; amarramos um tijolo na ponta da corda pra jogar lá pra cima, também não funcionou. Aí, fizemos uma escada humana, fomos subindo uma no ombro da outra, deu certo’’ conta.
Mas foi na hora da fome, que o bicho pegou. ‘‘Comi muito broto de samambaia. Onde a gente passava, estivesse fazendo o que fosse, se encontrasse alimento tinha que colher e levar pro acampamento’’, revela a 1º tenente, dizendo que a maioria dos alimentos eram transformados em caldo para melhor serem ingeridos. E de 5 a 8 colheres de sopa por dia, essa a refeição delas nos 4 dias e meio que ficaram na mata.
Ainda no terreno da alimentação, o ‘‘prato principal’’ do grupo foi banana verde que, pra ficar suportável, cozinhava o dia inteiro na fogueira e, ainda assim, só com muito sal, pra descer. ‘‘Tentamos comer assada, mas o gosto era horrível. Com o dia inteiro no fogo, ficava com um gosto razoável’’, lembra Laura, dizendo que elas tentaram buscar outros alimentos caçando e pescando nos rios da mata. ‘‘Mas só conseguimos caçar um passarinho e pescar 6 peixinhos e 3 camarãozinhos’’.
Presente à entrevista, o namorado de Laura, capitão/aviador, Luiz Carlos Hyppolito, explica que no mato, ‘‘tudo que é amargo, cabeludo e leitoso, não se come porque, com raras exceções, pode conter substâncias venenosas’’. Como dica de sobrevivência na mata, ele diz que ‘‘tudo o que uma ave ou um macaco come, você também pode comer. É só observar as árvores, se ver fruto bicado por passarinho, pode comer’’.
Hyppolito revela uma outra regra elementar a ser seguida na hora da fome: colocar uma pequena porção daquilo que se quer comer na boca durante uns 5 minutos, mastigar um pouco, mas não engolir. ‘‘Se não acontecer nada, nenhuma reação alérgica, engole. Aí, aguarda 24 horas e se não ocorrer nada de anormal, é comestível’’, garante.
Voltando à conversa, Laura falou da felicidade que tiveram quando encontraram um limoeiro com apenas 3 limões no pé. ‘‘Eram dois gominhos pra cada uma, um na hora do almoço e outro na hora de dormir’’, revela e conta que, acabado o limão, alguém teve a idéia de fazer chá com a folha da fruta que, a partir daí, era tomado quente na beira da fogueira. ‘‘O crítico da fome é até o terceiro dia. Agora, sem água não há vida’’, observa Laura, informando que levaram comprimidos de purificação de água para colocar no cantil.
Laura conta que, pra ela, pior que a fome, foi o frio. ‘‘A fome vem, é desesperadora, mas tem um pico, passa e você fica ainda umas 6 horas sem comer. Agora, o frio era demais. Das 4 noites, só consegui dormir uma’’, informa a 1º tenente, contando que dormiam abraçadas para se esquentar.
Orgulhosa do feito, Laura revela que no quarto dia já tinham tudo pra sobreviver na selva: barraca, fogueira, jiral feito de madeira e bambu para dormir, rabo de Jacu (espécie de abrigo coberto com folhas de bananeira), lenha, latrina, local para abate de caça, moquem para defumar a carne que, na falta de sal, pode ser salgada com a cinza da própria fogueira.
No dia-a-dia, algumas regras tinham que ser seguidas. As tarefas eram divididas, eram obrigadas a sair sempre em duplas e avisar todas as vezes que fossem sair. Além disso, tinham que dizer onde iam e o tempo de permanência no local. Também foram orientadas a andar sempre em linha reta para não se perder na mata. Muito cansadas, alguns conflitos aconteceram pois ‘‘umas achavam que estavam trabalhando mais que as outras’’. Ela conta também que acordavam por volta das 5 horas da manhã e dormiam em torno das 9 horas da noite.
As boas lembranças ficam por conta do banho de rio que só vieram a tomar depois do terceiro dia de selva; da hora do regresso, quando fizeram, uma por vez, palpitante viagem de aproximadamente 5 minutos penduradas no ‘‘maguari’’ - cabo preso ao helicóptero - com a visão maravilhosa da Ilha Grande com sua exuberante floresta e o mar em volta.
‘‘A convivência em grupo me enriqueceu muito. Ficamos mais fortalecidas, mais unidas, no final parecia que éramos amigas de anos’’, diz, lembrando de uma outra lição: ‘‘Não se deve deixar o nervosismo chegar no ponto máximo. Quando a gente se enerva demais, a ponto de perder o controle, é preciso se distanciar um pouco do grupo para refletir’’, ensina.
Avaliando o exercício de sobrevivência, ela simplesmente diz: ‘‘Sobrevivemos e, no meu entender, muito bem’’. E, se tudo valeu à pena, até os cerca de dois quilos que cada uma perdeu nos 4 dias e meio de mata, mais contentes ainda ficaram quando ouviram, já resgatadas, a frase dita pelo major Bastos, palavras que Laura Suely não esquece:
- Vocês acabaram de selar o futuro das mulheres na FAB.

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