Sid SauerDomínio femininoA delegada Lucimar, a promotora Nayani, a juíza Maria Laura e a prefeita Elza; mulheres têm presença também na Câmara de VereadoresO nome do município é uma homenagem a um homem que no início do século colonizou a região. Homem em destaque em Barbosa Ferraz (74 km a oeste de Campo Mourão), no entanto, é coisa do passado. A cidade, de 14.707 habitantes, é administrada por uma prefeita. No Fórum, quem dá as cartas é uma juíza e uma promotora. Na delegacia, a delegada também é uma mulher. Para completar o time, a escrivã de polícia é mulher e, na Câmara de Vereadores, as mulheres ocupam duas das nove cadeiras. Uma é líder da prefeita e outra vice-presidente da Casa.
Curiosamente, a cidade onde as mulheres dominam tem mais homens. Segundo o Censo de 96, são 7.431 homens contra 7.276 mulheres. Uma diferença de 155 pessoas. ‘‘Estamos vivendo uma grande coincidência’’, despista o empresário Manuel Guimarães Vieira, 50 anos. Na pacata cidade, o assunto é um dos preferidos nos bares. ‘‘Tiramos sarro de nós mesmos’’, diz o dono de bar Sérgio Akio Sudo. ‘‘Aqui homem não manda nada’’, brinca. Para as mulheres, tudo é motivo de orgulho. ‘‘É uma nova realidade’’, frisa a comerciante Sebastiana Almeida, 45 anos.
‘‘As pessoas ainda ficam surpresas quando descobrem que as mulheres ocupam esses cargos em Barbosa Ferraz’’, conta a promotora Nayani Kelly Garcia, 25 anos. Ela diz que nunca sofreu preconceitos por ser mulher e que, profissionalmente, não há diferença entre trabalhar com juízes homens ou mulheres. A diferença está fora do Fórum. As mulheres que ‘‘mandam’’ em Barbosa Ferraz são unânimes num ponto: o relacionamento delas é o ‘‘melhor possível’’.
Segundo a promotora, a mulher está provando que não serve apenas para ‘‘pilotar fogão’’. Ela lamenta, no entanto, que o fato das mulheres estarem assumindo cargos no judiciário ainda não seja suficiente para que os casos de agressões contra a mulher, principalmente pelos maridos, sejam mais denunciados. ‘‘Há pouca orientação e as mulheres ainda têm medo da discriminação de ficarem separadas’’, ressalta.
A juíza Maria Laura Alvim Sarmento, 37 anos, não se acha discriminada por ser uma mulher atuando na carreira, mesmo trabalhando numa cidade pequena. ‘‘Dentro no tribunal as pessoas não vêem homem ou mulher’’, destaca. ‘‘Elas vêem apenas a figura do juiz’’, completa. Para ela, os homens também mudaram e já aceitam com mais naturalidade a participação da mulher. ‘‘A mulher saiu da vida doméstica, gostou e se deu bem’’, diz. A juíza afirma que a vantagem da mulher é uma maior preocupação com o lado social. ‘‘A mulher tem mais paciência para conversar e ouvir os problemas das pessoas’’, diz a juíza.
A delegada de polícia Lucimar Adami Cafisso, 26 anos, é outra que não reclama da discriminação. ‘‘Deve haver homens que não acham certo uma mulher ser delegada’’, diz. ‘‘Vamos provar que podemos exercer a função tão bem ou até melhor que os homens’’. O marido dela, por exemplo, apóia a carreira de Lucimar e nem se importa mais quando ela é chamada de madrugada para providenciar um inquérito.
A delegada assumiu o cargo apenas há uma semana, mas experiência na delegacia da cidade ela já tem, uma vez que foi escrivã de polícia em Barbosa Ferraz por cinco anos. Lucimar deixou o cargo, mas foi substituída há um ano por outra mulher, Clara Garbelotti, 40 anos. ‘‘Estou gostando da experiência’’, diz a nova escrivã. Com a experiência adquirida, Lucimar garante que não é preciso ter força física para ser delegada. ‘‘Trabalho com a lei’’, destaca. Ela não anda armada, mas garante que está preparada para usar uma arma, se for preciso.

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