Seus maridos desapareceram, alguns há mais de uma década. Apesar de os corpos ainda não terem sido encontrados, elas não têm nenhuma expectativa de que estejam vivos devido ao grande período de tempo que já se passou. Viúvas, a maioria com filhos menores para criar, na falta do corpo do marido elas não conseguem receber pensão e seguro de vida.
Não existem estatísticas pela falta de uma central de informações com todos os dados de ocorrências envolvendo caminhoneiros nas estradas do Brasil. Mas sindicatos e advogados estimam que há um grande número destas viúvas espalhadas pelo Brasil. O advogado Wilson Sella, que está auxiliando uma destas viúvas – que nunca conseguiu enterrar seu marido – a criar uma Associação de Viúvas de Caminhoneiros, estima que na região de Londrina existam pelo menos 50 mulheres nestas condições.
Maria Helena Ferrar, 53 anos, está encabeçando o movimento. Ela tem contato com pelo menos seis mulheres que tiveram os maridos desaparecidos nas estradas. Em apenas um caso o corpo foi encontrado. O objetivo da entidade é prestar assessoria a estas viúvas para que saibam como reivindicar seus direitos e que caminhos buscar para isso. Sem informações, elas ficam desamparadas emocionalmente e economicamente. A falta do corpo da vítima dificulta a liberação da pensão pelo INSS e o pagamento de seguro de vida. De acordo com o advogado, a alegação é que não há como comprovar que estes caminhoneiros morreram, já que o corpo não foi encontrado.
Maria Helena demorou dois anos para conseguir receber a pensão do INSS. Outras mulheres estão há meses tentando conseguir. A pensão demora, mas acaba saindo. Já o pagamento do seguro de vida, em alguns casos, é muito complicado. Sella afirma que as seguradoras alegam que o pagamento só é efetuado se o caminhoneiro morre dentro do caminhão.
Aída, 48 anos está enfrentando esta dificuldade. Seu marido morreu em outubro de 1999 e o corpo foi encontrado dois meses depois amarrado a uma árvore. ‘‘A seguradora não está pagando o seguro porque o corpo não foi encontrado dentro do caminhão’’, afirma. A ausência do corpo da vítima impede também que estas mulheres recebam FGTS e PIS, segundo Maria Helena. ‘‘Para receber estes direitos precisamos conseguir na Justiça um atestado de óbito por averbação’’, conta. Maria Helena conseguiu o documento 11 anos depois do desaparecimento do marido. ‘‘Mesmo assim só consegui que a seguradora pagasse o seguro depois que procurei a imprensa’’, informa.
A maioria das viúvas de caminhoneiros cujos corpos não foram encontrados não têm acesso a estas informações. ‘‘A associação irá facilitar a vida delas’’, afirma Maria Helena. O advogado Sella explica que a associação está em vias de ser criada, mas a dificuldade está sendo aglutinar um número significativo de mulheres nesta situação. ‘‘Existe uma dificuldade de entrar em contato com estas mulheres, porque elas se fecham devido ao trauma do que estão vivendo’’, diz o advogado. Outra dificuldade é criada pela própria natureza do trabalho dos caminhoneiros, que estão sempre viajando e suas famílias acabam ficando em cidades distantes.

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