Mulheres superlotam delegacias
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sexta-feira, 06 de janeiro de 2012
Marian Trigueiros <br> Reportagem Local
Numa visita, a constatação: além das celas lotadas, dezenas de colchões no chão disputam espaço no pequeno corredor do 3º Distrito Policial (DP) de Londrina. Atualmente, são 88 mulheres em uma unidade que, em tese, deveria comportar no máximo 36. A realidade do distrito se repete por todo o Estado que, segundo números oficiais, tem 1.284 presas em delegacias disputando cada centímetro do espaço físico disponível. O Paraná só possui uma penitenciária feminina, com apenas 506 vagas.
A detenta E.S., 39 anos, está há quase dois anos cumprindo pena por tráfico de drogas no 3º DP. Numa cela com cerca de 9 metros quadrados, divide o espaço com outras três mulheres, onde passa os dias à espera de sua liberdade. ''Vim parar presa por causa do meu filho. Eu era apenas usuária. Mas como a droga estava em casa, o policial me levou junto. Agora estou aqui e meu filho no Cense'', diz.
Em sua ''jega'' - apelido dado para cada cama - a presa acumula um guarda-roupa improvisado, toalhas penduradas, prateleira com produtos de higiene pessoal e um ventilador. ''Quando não estou dormindo, estou lendo a Bíblia. Não tem muito o que fazer aqui.'' Vida muito diferente da que levava antes de se tornar dependente do crack. Mãe de três filhos - dois deles agora no albergue - ela lembra dos cuidados com os pequenos. ''Levantava às 5 horas da manhã para dar café e depois levá-los para a creche. Só voltava no final do dia depois de trabalhar o dia todo como diarista.''
Com uma história de vida de abandono - foi deixada num orfanato pela mãe alcoolista ainda criança - E.S. diz se preocupar com o futuro do mais novo, com apenas 12 anos. ''Acho que ele está começando a se envolver com drogas também. Não quero que tenha o mesmo destino que eu. Como não estou lá, só Deus pode olhar por ele'', conta com lágrimas nos olhos. Sentenciada em pouco mais de 9 anos de pena, diz que não quer passar os próximos anos presa num distrito. ''Aqui ficamos esquecidas. Praticamente não temos atividades. Atendimento jurídico, então, nem pensar'', reclama ela, que tem a esperança de conseguir liberdade condicional em breve.
Com quase o mesmo período de reclusão está G.A.D, 38 anos. Presa por estelionato, vai cumprir uma pena de 15 anos por agravante com tráfico de drogas. Diferente, porém, da colega de carceragem, não possui uma jega, mas um ''valete'' - espaço que se resume a um colchão no chão envolto por lençóis, formando uma espécie de cabana. ''Este aqui é meu cantinho. Tenho minha televisão, meus cremes, porque sou vaidosa, minhas roupas, minhas fotos na parede, as coisinhas que gosto de comer'', diz, mostrando cada um dos itens.
Ela conta que já foi mais rebelde. Hoje, no entanto, se diz mais tranquila e resignada. ''Isso aqui não é vida para ninguém, não. Parei de arrumar confusão. Quero sair logo para ver minha filha crescer.'' A menina de 11 anos é fruto do relacionamento com o companheiro, ex-presidiário, que ela conheceu em um dos indultos que ele recebeu. ''Agora nem sei mais se estamos juntos. Foram quase dez anos visitando-o toda semana na cadeia. Sei que ele saiu faz cinco meses. Desde então, não veio me ver e muito menos a filha dele.''
Entre a revolta e a espera do dia de sair que não chega, divide seu tempo entre os programas de TV, leituras bíblicas e preparo de salgados no pequeno cubículo. ''Se não for assim, a gente fica louca aqui dentro. Tem que ocupar a cabeça'', revela. Em outros momentos, aproveita para arrumar o cabelo e fazer as unhas. ''Gosto muito de me arrumar, principalmente quando vou receber visita. Quando minha mãe e filha vêm, ficamos por aqui mesmo no colchão, ou vamos lá para o pátio quando não tem sol'', conta.
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