Nas baladas e nas festas em família as mulheres já se igualam aos homens na ingestão de bebidas alcoólicas. Mas o que poderia ser mais um exemplo das conquistas femininas é, na verdade, motivo de preocupação. As características fisiológicas da mulher dão a ela maior vulnerabilidade ao álcool, fazendo com que absorva 30% mais da substância ingerida que os homens e apresente uma alcoolemia maior. Em outras palavras, os efeitos da bebida no organismo feminino são ainda mais devastadores que no masculino. Ainda assim, elas bebem cada vez mais.
''Tem sido muito comum as jovens beberem para sentir uma falsa sensação de saciedade e não precisarem comer. Elas fazem isso para não engordar, mas não têm noção do perigo a que estão se expondo'', lembra a psiquiatra Nelma Serrate Vieira Rodrigues, vice-diretora clínica da Clínica de Reabilitação Psicofuncional e Social de Londrina.
A médica explica que a distribuição da gordura corpórea e os hormônios que atuam no organismo feminino são os responsáveis pela maior vulnerabilidade da mulher. ''Mas mesmo sendo mais frágeis, quando elas adquirem o hábito, bebem na mesma quantidade que os homens.''
De acordo com dados do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), responsável pelo Programa de Atenção à Mulher Dependente Química (Promud), as dependentes de drogas ou álcool também são mais penalizadas, porque têm cerca de 1,5 a 2 vezes mais chances do que os homens de contraírem complicações clínicas. Doenças como pancreatite, cirrose e neuropatias aparecem de forma mais grave nelas do que neles. A mortalidade é outro item que difere entre homens e mulheres alcoolistas. A idade média de vida delas diminui cerca de 15 anos.
''Estima-se que existam entre cinco e sete homens dependentes de álcool para cada mulher alcoolista. Mas esse número vem aumentando porque a mulher sofre os efeitos da entrada no mercado de trabalho'', observa a psiquiatra. Além de estar mais exposta ao álcool (festas e reuniões de trabalho em bares quase sempre são regadas a esse tipo de bebida), ela vive a ansiedade de ter que dividir seu tempo com as responsabilidades domésticas e de ter que provar sua competência no mercado de trabalho. ''E há um aspecto muito grave nisso tudo: entre os jovens, na maioria dos casos acontece o que chamamos de 'comorbidade', ou seja, a dependência do álcool sempre vem acompanhada do uso de drogas'', alerta a médica.
Ela lembra ainda que, uma vez instalado o hábito de beber, dificilmente a pessoa vai abandoná-lo sozinha. Entre as várias situações que levam à dependência, Nelma ressalta a herança genética: uma pessoa que cresce em uma família que faz uso da bebida alcoólica terá mais chances de estabelecer o vício. ''É raro uma pessoa alcoolista que não tenha outra na família na mesma situação.''
Difícil aceitação
Iraci da Silva Leite, assistente social da comunidade terapêutica pioneira do projeto Fazenda da Esperança, em Guaratinguetá (SP), observa que a recuperação feminina do alcoolismo é mais ''delicada''. Entre outras características, ela lembra que a mulher demora mais para admitir o vício e pedir ajuda. ''Até porque ela tem que continuar com suas obrigações de mãe, de dona de casa, apesar da dependência'', argumenta a assistente social.
As comunidades que integram a rede Fazenda da Esperança estão presentes atualmente em mais de 60 cidades brasileiras e em vários países da Europa, Ásia e Américas.
Segundo Iraci, que trabalha no projeto desde 1983, também é comum a família abandonar a mulher que sai de casa em busca de tratamento. Embora existam exceções, dificilmente o marido vai visitar a esposa internada. Já a situação inversa é muito comum. ''A própria família 'segura' a mulher o maior tempo possível dentro de casa.''
Mesmo sem estatísticas a respeito, a assistente social diz que é visível, nos últimos anos, o aumento da dependência química em mulheres. E o mais grave, ressalta, é que elas começam a beber cada vez mais cedo.

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