No Dia Internacional da Mulher a FOLHA lembra histórias daquelas que ajudaram na construção de Londrina. Pioneiras que estavam nestas terras nos primeiros dez anos de colonização, que enfrentaram mato, doenças e frio para acompanhar a família em uma terra promissora.
A historiadora Rosimeire Angelini Castro, doutora em História Social e autora da tese ''Ecos da Memória - uma contribuição à história a vida cotidiana de mulheres no Paraná - 1930-1975'', lembra que no início da colonização a vida era simples, rústica, em que tudo que estava por ser feito precisava de improviso. Para ela, a vinda das mulheres e a permanência delas no cuidado com a família e com os filhos foram fundamentais para que a cidade se tornasse o que é hoje.
''Se a gente pensar em trabalho doméstico como trabalho produtivo, percebemos que elas tinham muita interferência econômica na família, a começar pelo preparo dos alimentos. Uma mulher que sabia utilizar bem a farinha de trigo conseguia uma economia doméstica para preparar os alimentos e abastecer a família por mais tempo. Elas têm um papel econômico de extrema relevância'', explicou.
Ao mesmo tempo que os homens dedicavam seus esforços pela construção da cidade, que completa 78 anos este ano, as mulheres forneciam a eles todo o suporte que precisavam, cuidando da alimentação, da casa e dos filhos. ''Os homens viajavam muito e cabia às mulheres assumir todos os afazeres. O cuidado com a casa era muito diferente do mundo que a gente vive hoje. Todos os trabalhos eram praticados à exaustão. Lavar roupa e louça não eram tarefas tão simples'', afirmou Rosimeire.
Em sua tese a historiadora constatou que a maioria das mulheres chegou até o Norte do Paraná acompanhada do marido, mas há relatos de algumas que vieram sozinhas. ''Temos o depoimento de uma que veio mas o marido continuou em São Paulo. Ela chegou aqui com a filha de dois anos e abriu uma padaria'', afirmou. Há ainda o relato de uma outra mulher que, juntamente com a mãe e o irmão menor, vendia leite. ''Eles acordavam de madrugada e tiravam o leite da vaca. Esta mulher, jovem e solteira, andava à cavalo de madrugada uma distância de oito quilômetros entre o Patrimônio Heimtal e o Núcleo Urbano de Londrina para comercializar o leite e complementar o orçamento doméstico'', destacou.
Rosimeire disse que algumas mulheres assumiram papel de chefes de família posteriormente, já que os maridos iam para as derrubadas e corriam muitos riscos. ''A morte era comum, havia muitos acidentes com palmito.'' Doenças como malária e febre amarela eram comuns nesta região. ''Em alguns momentos as pensões se transformaram em enfermaria, eles socorriam quem estava doente e as mulheres participavam de todo este processo fazendo o papel de enfermeiras'', disse.
As mulheres, juntamente com os filhos, eram as principais responsáveis pela criação do vínculo com esta terra. ''Os homens saíam para trabalhar na região, mas sempre tinham uma casa e uma família para onde retornar'', explicou. ''É emocionante ver como elas tiveram seus filhos, às vezes com ajuda de uma vizinha e depois das parteiras. Eram proles extensas e conseguiram sobreviver, criaram seus filhos, construíram uma identidade e conseguiram ser felizes'', lembrou Rosimeire.
A historiadora contou que esta era uma sociedade plural de diferentes vivências e experiências. ''Aqui as famílias começaram do zero, mas ao mesmo tempo trouxeram sua bagagem cultural, econômica e política do local onde vieram''.

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