Mulheres batalhadoras
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de fevereiro de 2002
Erika Pelegrino Reportagem Local 
Desde agosto do ano passado, um grupo de mulheres de bairros da região Sul de Londrina, Franciscato, Novo Perobal, União da Vitória, Itapuã, enfrentam um novo desafio, trabalhando na separação e venda de materiais recicláveis. O projeto é mais um dos muitos desenvolvidos pela Organização Não-Governamental (Ong) Associação das Mulheres Batalhadoras, que há dez anos vem trabalhando no resgate da cidadania daquela comunidade.
O projeto começou com 38 pessoas. Hoje 14 mulheres e um homem estão trabalhando na coleta, em campanhas de esclarecimento da comunidade, na separação e na venda dos materiais.
Rosalina Batista, assessora de projetos de desenvolvimento da Ong, explica que a falta de um espaço maior de trabalho não permitiu que as 38 pessoas continuassem sendo atendidas. Conseguimos inserir algumas no mercado de trabalho. Outras, que já tinham dinheiro de aposentadoria, por enquanto, estão paradas. Estamos atendendo aquelas que estavam em situação mais difícil, sem nenhuma renda, afirma.
Uma pequena casa foi alugada pela associação no Jardim Franciscato, onde o projeto de separação e venda de lixo reciclável Construindo um Mundo Novo, está sendo desenvolvido. As condições de trabalho são difíceis. A mesa onde o grupo trabalha na separação do material fica no quintal, protegida apenas por lona.
Aproveitamos o tempo bom. Quando chove não podemos trabalhar, conta Aparecida Euzébio Francisco, 61 anos. A falta de uma prensa impõe limites no preço de venda do lixo reciclável. Como vendemos sem prensar, o valor cai em 50%, afirmou Rosalina.
Apesar das dificuldades, o trabalho na separação do lixo mudou a vida dessas mulheres. Orondina, 24 anos, Aparecida, 61 anos, Hilda, 61 anos, Maria, 42 anos, Sidnéia, 30 anos, Dalva, 27 anos. Arrimo de família, elas sustentam filhos e marido desempregado com o pouco dinheiro que tiram. A renda é pouca, mas as perspectivas são boas. Com um espaço maior e uma prensa, a meta é conseguir tirar mais de um salário mínimo, afirma Rosalina.
Todas elas têm história de vida difícil. O pão de cada dia conquistado às custas de trabalho árduo, desde a infância. Mas foi o desemprego que lhes roubou a esperança. Dalva Paulino, 27 anos, dois filhos, marido desempregado, pensava em suicídio. Sidnéia Martins Mariano, 30 anos, três filhos e marido internado em um manicômio há 16 anos, sofria de depressão.
Eu já sofri muito. A noite não dormia porque sabia que não tinha dinheiro para pagar o aluguel. Fiquei sem água, sem luz, conta Sidnéia. Aparecida, 61 anos, já perdeu as contas de quantos trabalho já teve. Todo trabalho é muito bom. A gente não pode é ficar parada, afirma. O trabalho com o lixo trouxe a perspectiva de conseguir o sustento e muito mais: o convívio com outras mulheres que viviam o mesmo drama.
O que adoece a gente é a falta de convívio, afirma Rosalina.
E isto estas mulheres conquistaram. Somos uma família, diz Orondina Azevedo. Hoje se a situação apertar eu sei a quem recorrer, completa Sidnéia. São mais de 10 horas de trabalho. Enquanto separam garrafas, plásticos, papelão, o riso fácil, as histórias de vida de cada uma, a troca de experiência, vão aos poucos devolvendo a auto-confiança.
Antes eu não acreditava que podia melhorar de vida. Me via de forma péssima, afirma Sidnéia. As outras concordam. A imagem que tinham de si mesmas era de fracasso. Hoje têm muitos planos. Estão matriculadas num curso de alfabetização em parceria da Ong com a Apeart; e já têm emprego em vista.
Uma fábrica de vassouras e cabides a partir de material reciclável que está sendo montada em Londrina já entrou em contato com a Ong para contratá-las, afirma Rosalina Batista.


