Sid Sauer
De Campo Mourão
A doméstica Elisabete Moreira Duarte, 29 anos, quer ajuda para provar que está viva. Quase um mês depois de ter retornado a Campo Mourão e descobrir que era considerada morta desde outubro de 1996, Elisabete se queixa que não tem dinheiro para contratar um advogado e, sem documentos, não pode voltar para Santos (SP), onde estava morando, nem arrumar um emprego. O marido dela também está desempregado.
‘‘Até agora, todo mundo ficou curioso com a minha história, mas ninguém me ajudou’’, queixa-se a doméstica. No mês passado, Elisabete chegou a procurar a delegacia de polícia de Campo Mourão, mas foi informada de que precisaria contratar um advogado. ‘‘Não tenho nenhuma condição de pagar advogados’’, diz. Na tentativa de ajuda, a doméstica diz que já enviou um fax até para o apresentador de TV ‘‘Ratinho’’, mas ainda não obteve resposta.
Elisabete voltou a Campo Mourão no dia 10 de setembro. Ela estava há três anos em Santos e resolveu fazer uma visita de um mês aos pais. Quando chegou à casa da mãe, no entanto, foi recebida com sustos e desmaios. É que a família havia reconhecido o corpo de uma mulher assassinada a facadas, em outubro de 1996, em Curitiba, como sendo o de Elisabete. O corpo foi velado e enterrado no Cemitério Municipal São Judas Tadeu, em Campo Mourão.
‘‘Vim para ficar apenas um mês, mas agora não posso voltar enquanto não resolver essa situação’’, conta Elisabete. O marido dela, que a princípio ficaria em Santos, chegou a Campo Mourão na sexta-feira para ajudar a mulher a resolver a situação. Como perdeu todos os documentos ao ter sua bolsa roubada, em Santos, o único documento de Elisabete que sobrou foi a certidão de óbito, que está com a mãe dela.
Quando trocou Curitiba por Santos, bem que Elisabete tentou avisar a família através do Correio. Todas as cartas que ela enviou, porém, foram devolvidas. É que a doméstica não contava com uma mudança na numeração de todos os imóveis do município, promovida pela prefeitura. A história de que estava morta há três anos deixou Elisabete assustada. Só agora ela se dispõe a falar com a imprensa. ‘‘Estava com medo’’, conta.

‘‘Só volto ao
cemitério depois
que morrer’’
Folha – Como foi descobrir que estava morta?
Elisabete – Foi um susto e complicou toda a minha vida.
Folha – Alguém chegou a correr com medo de você?
Elisabete – Correr, não, mas minha mãe perdeu a consciência por uns instantes. Todo mundo ficou assustado.
Folha – O que as pessoas diziam para você?
Elisabete – Diziam que tinham passado a noite no meu velório e que eu estava morta.
Folha – E você?
Elisabete – Eu dizia que estava viva.
Folha – Você já foi no cemitério ver seu túmulo?
Elisabete – Já, mas fui só por curiosidade. Não quero voltar mais lá. Só depois que morrer.
Folha – Você sabe como provar que está viva?
Elisabete – Sei que estou muito viva e preciso de ajuda, mas não tenho como pagar um advogado.
Folha – Sua família não pode ajudar?
Elisabete – Minha família já gastou o que não tinha para trazer de Curitiba a Campo Mourão o corpo que pensou que fosse o meu.
Folha – Sua mãe disse que passou três anos rezando para que fosse feito justiça porque achava que você tinha sido assassinada...
Elisabete – ...mas ainda falta justiça. Deve ter uma mãe e um pai desesperados por uma filha que desapareceu em Curitiba e está enterrada em Campo Mourão.

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