Mulher morre após ter a casa invadida
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terça-feira, 10 de março de 1998
Lúcio Horta 
Dorico da SilvaMoradores observam Elza da Silva Melo morta: construtora teria facilitado invasão de apartamento A morte da moradora Elza Maria da Silva Melo, 46 anos, ontem pela manhã, reacendeu a polêmica em torno do condomínio Residencial das Américas, localizado na zona norte de Londrina. A moradora morreu, aparentemente, vítima de um ataque cardíaco, pouco depois dela verificar que o apartamento onde morava tinha sido invadido. Parte da mobília e todos os documentos referentes ao imóvel também desapareceram. Elza Maria da Silva deixa quatro filhos.
O marido de Elza, Augusto Mendes da Silva, acredita que a invasão do apartamento tenha sido facilitada pela própria administradora do apartamento, a empresa Mendes Neto, que representa a construtora Santa Cruz em Londrina. A empresa teria tirado os móveis dele do local e negociado o apartamento com outra pessoa. A razão seria porque Silva atrasou algumas prestações do imóvel - que depositava em juízo - e também das taxas de condomínio.
O delegado do 4º Distrito Policial, Edson Casagrande, disse que um inquérito vai investigar as circunstâncias da morte da moradora. Segundo ele, serão ouvidas todas as pessas envolvidas no caso. O delegado garantiu que, se a invasão do apartamento tiver relação com a morte da moradora - ou seja, se ela sofreu o ataque cardíaco por estar sob forte emoção, depois de verificar que o imóvel havia sido invadido -, a construtora Santa Cruz e a Mendes Neto poderão ser indiciadas por homicídio culposo.
Dorico da SilvaA síndica Maria Mendes: Só o doutor Neto pode falar
O perito Geraldo Gonçalves, do Instituto de Criminalística (IC) de Londrina, confirmou, depois de examinar o corpo externamente, que a morte de Elza Melo realmente pode ter sido provocada por problema cardíaco. A conclusão final, no entanto, só sairá com laudo de necrópsia do Instituto Médico Legal (IML).
Segundo Augusto da Silva lembra que há cerca de duas semanas, quando ele tentou entrar no condomínio, foi barrado na portaria. No residencial, só entra quem tiver autorização. Disseram que eu não morava mais lá, diz. Ele explica que o casal também tinha uma casa na região dos Cinco Conjuntos, na zona norte, onde ele trabalha. Por isso, ele e Elza não costumavam dormir diariamente no apartamento. No dia seguinte, depois de ser barrado, Silva foi ao escritório da Mendes Neto para saber o que estava acontecendo. Foi orientado por um funcionário conhecido como Toninho a procurar Manoel Mota Neto, um dos administradores do Residencial das Américas.
O Neto disse que estava tudo certo, que não tinha razão para me barrarem na portaria, conta. Aí eu subi até o apartamento, mas a fechadura e o trinco de segurança haviam sido trocados. Augusto da Silva conversou com vizinhos e descobriu que o apartamento tinha novo morador havia cerca de uma semana. Ligou novamente para Manoel Neto e este disse que não estava sabendo de nada. Antes de tomar qualquer atitude, Augusto da Silva decidiu tentar descobrir quem era o novo morador para saber o que estava realmente acontecendo. Pedi para um vizinho me avisar quando ele chegasse.
No último sábado, Augusto da Silva voltou ao apartamento e foi atendido por um rapaz. Falei que o apartamento era meu e que tinha documentos lá dentro. O rapaz então disse que ia chamar o novo dono, que chegou em seguida. Para surpresa dele, o novo dono era um amigo, que ele conhece apenas pelo apelido de Barriga. Perguntei o que estava acontecendo e o Barriga disse que tinha acertado direto com a construtora. Acabou enrolando e não soube explicar nada. Parte da mobília já tinha sumido do imóvel, assim como documentos de aquisição do próprio apartamento, de duas outras casas e um terreno.
Dorico da SilvaAugusto: Isso não vai ficar assim
Augusto da Silva afirma que combinou com Barriga ir até o representante da construtora Santa Cruz na segunda-feira seguinte (anteontem) e tentar acertar a situação. No dia combinado, no entanto, o morador disse que Barriga quis negociar: ao invés de acertar com a Santa Cruz, ele pagaria a Augusto uma espécie de aluguel. Falei não. Gosto das coisas certas. Aí ele não queria mais me entregar a chave, afirma o marido de Elza Melo.
Ainda na segunda-feira, depois de contatar o advogado - e também vereador - Carlos Kita, Augusto da Silva procurou novamente a construtora e foi atendido por uma pessoa conhecida como André. Perguntou sobre a invasão, o desaparecimento dos móveis e dos documentos, e mais uma vez ninguém sabia de nada. Por telefone, Silva falou novamente com Barriga e insistiu para que se encontrassem no dia seguinte, para tentar acertar a situação de uma vez por todas. Ficou combinado que se encontrariam no apartamento na manhã do dia seguinte.
Ontem, por volta das 8h30, Silva foi com a esposa Elza até o apartamento e encontrou Barriga. Enquanto os dois fossem ao escritório negociar, Elza queria ficar esperando no apartamento, e Barriga tentou impedir. Houve discussão e, depois de algum tempo, o rapaz acabou concordando. Elza, muito nervosa, ficou no imóvel - sozinha - aguardando a volta do marido.
No escritório da Mendes Neto, depois de muita discussão, o funcionário conhecido como Toninho negou que soubesse dos móveis e documentos de Silva. Propôs, no entanto, que ele abandonasse o apartamento, deixando-o para Barriga. Para acabar com aquela situação, acabei concordando. Mas disse que só tiraria a mudança do apartamento quando devolvessem os móveis roubados. E, também, depois de conferir tudo. Desolado, Silva disse que voltou ao apartamento por volta das 10h30 e encontrou a esposa morta.
Vou tomar as providências para fazer justiça. Se é que existe providência a ser tomada, lamenta Augusto da Silva. Para ele, não há dúvidas de que a confusão toda foi criada pela própria construtora Santa Cruz, que teria permitido a invasão do apartamento. Isso não pode e não vai ficar assim, revolta-se. A Folha não conseguiu falar com Manoel Mota Neto. As ligações da reportagem não tiveram retorno.
O advogado Carlos Kita informou que vai prestar queixa na polícia sobre o desaparecimento dos móveis e vai acompanhar as investigações sobre a invasão do apartamento. Alguém vai ter que responder pela morte de Elza.


