Meio século de procura, saudade, angústia. A experiência, quase insuportável, foi vivida por dona Ana Marcelino Ferreira Cordeiro, que faleceu no último dia 14 em Ivaiporã (110 km ao sul de Apucarana), aos 97 anos. Ela protagonizou uma história cheia de particularidades, que culminou com um final surpreendente: Após 50 anos procurando o filho, ela conseguiu encontrá-lo com a ajuda de amigos, e como que sabendo ter encerrado uma grande missão, morreu 35 minutos depois.
O episódio comoveu a comunidade da Vila Nova Porã, onde a ex-moradora de Taiobeiras (município ao norte de Minas Gerais) viveu por vários anos, relembrando o dia em que deixou o filho, então com 17 anos, sair de casa para ganhar a vida nos cafezais paranaenses. A promessa era de voltar logo, mas não conseguiu, e ela, já viúva, não suportando a ausência do filho, partiu para o Sul no ano seguinte, acreditando na facilidade de encontrá-lo. A história que poderia ter sido de alegria, porém, foi marcada por desencontros.
''Eu tentei descobrir onde ela estava várias vezes, mas nunca consegui. Achava que não tinha mais mãe'', confessa Pedro Pereira Ramos, 67 anos, o filho que jamais saiu da memória de dona Ana. Ele conta que seu primeiro destino, ao sair de casa, foi Paranavaí, onde se casou e resolveu mudar-se para Cuiabá (MT). De lá ainda passou por São Paulo, antes de chegar à cidade de Acreúna, em Goiás, onde mora até hoje. ''Eu sempre pensava muito na minha mãe. Como fui o único filho, ela sempre foi muito apegada a mim'', revela.
Pedro confessa que ficou admirado com o desfecho da história. ''Parece que ela estava só me esperando para falecer.'' Os relatos de quem conviveu com dona Ana nos últimos anos e ajudou no reencontro da família confirmam a tese do filho. ''Assim que conseguimos localizar o Pedro e o colocamos em contato com a mãe por telefone, eles conversaram durante uns 30 minutos. Logo depois, ela foi hospitalizada e os médicos constataram um câncer no abdômen já em estado adiantado. Ela nunca havia se queixado de nada e sempre foi muito lúcida'', conta Rui Gasparotto, funcionário público inativo, que se empenhou nos últimos anos a realizar o sonho de dona Ana, uma velha conhecida. ''Nos anos em que viveu aqui, ela conquistou a todos, era uma pessoa muito grata pela vida, que exalava espiritualidade.''
Depois de muito investigar principalmente através de telefonemas , Gasparotto descobriu o paradeiro de Pedro, mas aí faltava localizá-lo na cidade goiana. Para isso, contou com a ajuda da Câmara de Vereadores de Acreúna, por intermédio do vereador Nivaldo Pereira Pinto (PMDB). ''Já ajudei mais de 50 pessoas a reencontrarem parentes, e este foi o caso mais difícil. Mas sempre senti que ia conseguir'', revelou Gasparotto. O tamanho das dificuldades se equipararam à emoção sentida por ele ao saber do reencontro. ''O Pedro levou 72 horas para chegar a Ivaiporã, junto com uma filha e um neto. Quando fiquei sabendo, corri para lá, mas só deu tempo de presenciar os últimos minutos de vida da dona Ana'', conta.
Para conseguir sobreviver em terra estranha, sem parentes as três outras filhas permaneceram em Minas e jamais voltaram a ver a mãe dona Ana contou sempre com a ajuda de amigos. Ela chegou a se casar outras três vezes, mas todos os maridos morreram. Nos últimos 15 anos, foi ''adotada'' pela família do encarregado de obras aposentado Laurindo Valeriano Sacchi, que chegou a construir uma casa para ela, em seu quintal. ''Ela se tornou parte da nossa família. Para nós foi a mesma coisa que perder uma mãe. Estamos sentindo muito sua falta'', lamenta Sacchi.
Em compensação, ele conta que ganhou novos amigos. ''Estamos esperando uma visita de mais familiares dela. Foi por Deus que conseguimos encontrar este filho. Vamos tentar agora encontrar as outras filhas para juntar novamente esta família.''

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