Célia Baroni

Mário CésarUma história de lutaRosalina Batista: ‘Hoje eu discuto e coloco meus pontos de vista para doutores. Não me acanho, mas tenho muito a aprender’As ações realizadas em Londrina em defesa dos direitos da mulher pode ajudar a melhorar a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Aproveitando a comemoração do Dia Internacional da Mulher - hoje, 8 de março - o Movimento Mundial de Mulheres deflagrou uma campanha: quer divulgar a proposta de documento internacional que fala sobre direitos femininos. As ações realizadas em Londrina, ao lado de inúmeras ações semelhantes no mundo inteiro, vão respaldar o documento.
O objetivo é conseguir junto à ONU que o documento passe a integrar a Declaração Universal dos Direitos Humanos, elaborada em 1948, que ainda trata a questão de forma global, sem referência específica às mulheres.
Londrina aderiu ao movimento e, a pedido do Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem), deverá encaminhar o relatório e um abaixo-assinado de apoio ao movimento até o dia 20 de março. Além dessas contribuições, a Secretaria Especial da Mulher se comprometeu a divulgar do conteúdo da proposta na Cidade. A divulgação foi iniciada durante a 6ª Semana Municipal da Mulher - que começou na última segunda-feira. Durante todo o evento, houve coleta de assinaturas e os participantes receberam cópias do documento.
A secretária especial da Mulher em Londrina, Dora Barnabé, explica que a proposta é sistematizar dentro de um único documento todas as leis que contemplam os direitos da mulher e as suas necessidades ainda não transformadas em lei. ‘‘Entre outras coisas, a Declaração dos Direitos Humanos não caracteriza a violência familiar e sexual contra as mulheres como uma violação dos direitos humanos’’, diz Dora.
A eliminação da violência contra a mulher, dentro e fora do âmbito familiar, ganha ênfase no documento proposto pelo Movimento Internacional. A questão foi considerada condição imprescindível para garantir o desenvolvimento individual e social da mulher e a sua participação igualitária em todas as esferas da vida.
Dora Barnabé esclarece que até recentemente o Movimento de Mulheres dava prioridade ao debate sobre o preconceito contra a mulher no trabalho e na vida política. Nos últimos 10 anos - diz a secretária -, pesquisas e trabalhos científicos mostraram que um dos principais obstáculos para a mulher conquistar o pleno direito à cidadania estava dentro de casa.
‘‘Mesmo se impondo no mercado de trabalho, a mulher continua vítima de violência psicológica e física. E o seu trabalho dentro de casa, na educação dos filhos e administração do lar continua sendo desvalorizado’’, comenta a secretária. Em Londrina o Centro de Atendimento à Mulher (CAM) atende, em média 400 novos casos de violência contra a mulher por anos. A maioria dos casos acontece dentro de casa.
‘‘Considerando que dois terços dos casos de violência contra a mulher não são denunciados, a estimativa é de que, por ano, pelos menos 1.200 mulheres sofrem algum tipo de violência na Cidade’’, calcula. ‘‘O poder de mudança está nas mãos da mulher. Mas para isso ela precisa ter informação e acesso concreto aos seus direitos.’’
No documento que está sendo elaborado em Londrina, vão estar o histórico da criação e atuação da antiga Coordenadoria Especial da Mulher, hoje Secretaria Especial, e um levantamento da participação da mulher nas associações e movimentos da Cidade. ‘‘Em todo mundo, o crescimento e o perfil da organização dos movimentos que abordam a questão de gênero são indicadores definitivos para dar respaldo ao Movimento Internacional das Mulheres.’’
No dia 10 de dezembro, data em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 50 anos, o Movimento Mundial das Mulheres vai apresentar à ONU a proposta de inclusão do documento internacional. Junto com o documento, estará o perfil do avanço do movimento no mundo - e em Londrina.
De Minas Gerais para Estados Unidos, Chile e só Deus sabe mais para onde. Rosalina Batista, 50 anos, chegou longe e ainda quer alcançar muito na vida. Está enganado quem pensa que, aos 50 anos, ela já conquistou todos os sonhos. Entre os planos da líder comunitária, estão cursar uma faculdade de ação social e desenvolver um trabalho para que as brasileiras ampliem a sua participação política.
Há muito tempo, ela se tornou uma referência na luta pelos direitos femininos em Londrina. Hoje, é vice-presidente da Associação das Mulheres Batalhadoras, membro do Conselho de Saúde da Região Sul (Consul) e representante da comunidade no Prouni, um projeto voltado à educação dos profissionais de saúde.
Vereadora, deputada? Ela garante que não pensa na possibilidade. Diz que, se fosse candidata, teria que abandonar o que mais gosta de fazer: combater a discriminação da mulher pobre.
Garra nunca faltou a Rosalina, filha mais velha de uma família de 12 filhos. Ela nasceu em Minas Nova (MG), no Vale do Jequitinhonha. Aos 7 anos, quando iria ingressar no 2º ano primário, saiu da escola para trabalhar. Tinha que ajudar os pais a garantir o sustento de seis irmãos.
‘‘Foi um sofrimento grande. Passei muito fome antes de chegar até aqui.’’ Franzina, chegou ao Paraná em 63, com 16 anos. Ela e a família vieram para trabalhar como colonos em uma fazenda de café, perto de Tamarana. ‘‘A gente nunca tinha visto plantação de café e algodão, mas a necessidade faz a adaptação.’’ Aos 18 anos, ela se casou e teve quatro filhos. A mais velha está hoje com 26 anos. A mais nova, com 9. Mas a revolução na vida de Rosalina Batista demorou a acontecer.
Foi em 79 que tudo começou. Com a falta de serviço no campo, ela e sua família se mudaram para Londrina. Compram um terreno e construíram uma casinha no jardim Franciscato (zona sul). Ela conseguiu emprego de doméstica em uma residência da Cidade. Mas, pouco tempo depois, foi demitida. A mulher para quem Rosalina trabalhava soube que ela morava no jardim Franciscato. ‘‘Fiquei revoltada. Moro aqui e tenho orgulho de onde vivo, dos vizinhos que tenho. Tem gente boa e gente ruim, como em qualquer lugar. O corpo de gente rica é feito do mesmo material que o de gente pobre. A única diferença é a sorte.’’
Movida pela revolta contra a discriminação, Rosalina começou a participar da Associação de Pais e Mestres (APM) da escola Albino Feijó, onde os filhos estudavam. Da APM (1982) para o Movimento Popular de Mulheres (1986) e Associação das Mulheres Batalhadorase (1989), ‘‘foi um pulo’’, diz. Os encontros e convenções sobre saúde e os direitos da mulher levaram Rosalina a vários lugares do País, além dos Estados Unidos e do Chile.
‘‘Hoje eu discuto e coloco meus pontos de vista para doutores. Não me acanho, mas tenho muito a aprender’’, afirma. Este ano Rosalina volta para a escola, na companhia de outros 159 adultos. Ela entra no 2ª série, que abandonou para trabalhar, e quer chegar à universidade. ‘‘Vou fazer Serviço Social, que é a área onde sempre atuei.’’
Os filhos e o marido, José Batista Sobrinho, que hoje trabalha no ramo da construção, apóiam o envolvimento de Rosalina nas questões sociais e políticas do Município. A filha Claurinéia Batista, de 25 anos, resume: ‘‘Temos orgulho dela. Sabemos o que esta atuação representa para a comunidade’’.

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