Um crime que leva a outro, que leva a outro, e assim invariavelmente Londrina vai perdendo cidadãos em nome de uma ''justiça'' baseada em princípios cruéis e valores deturpados. Na frente dos filhos de 4 e 9 anos, Jamila Novaes Issa, 32 anos, levou vários tiros por volta das 21 horas de quarta-feira dois, na versão da polícia, e ''uns quatro'', segundo o menino mais velho no rosto e na cabeça, sendo que um deles perfurou o olho esquerdo. O garoto ainda acionou o Siate e, segundo o policial que atendeu a ligação, o menino estava ''bastante apavorado''. Quando a ambulância chegou, porém, Jamila já tinha morrido.
O homicídio ocorreu cinco dias depois que dois jovens morreram em uma troca de tiros com policiais na mesma rua, quatro casas acima. Um deles, Ronaldo Vieira da Silva, 19 anos, era suspeito de ter participado do assassinato do policial Alexandre de Souza em março deste ano. A Polícia Militar havia se dirigido até o local depois de receber uma denúncia anônima informando que um foragido da polícia estaria escondido na casa.
A conexão entre essas mortes e o homicídio da noite retrasada é justamente a casa, de número 471 da Rua Severino Peba Rolim, no Jardim Maracanã (Zona Oeste de Londrina). Segundo informações de familiares, a residência pertencia a Jamila, mas ela residia no número 511. Dentro da casa, policiais encontraram na manhã de ontem inscrições como ''Janila vai morrer com a cabeça pindora na árvore'' (sic), e ''você é uma quagueta que denunciou os manos'' . As ameaças são um forte indício de que o homicídio teria sido motivado por vingança. ''Eles acreditavam que havia sido ela quem fez a denúncia'', constatou um PM. A casa não tinha nenhum móvel, as janelas e o vaso sanitário estavam quebrados e as paredes, sujas de fuligem.
''Todo mundo já sabe que foi o Rômulo. Eles se conheciam, ela era capaz de tirar do próprio prato para dar de comer a ele. Outro dia eles brigaram por causa da casa, daí ele jurou ela de morte'', afirmou a madrasta de Jamila, Iolanda Miranda, confirmando as suspeitas dos policiais de que o mandante do crime teria sido um morador das redondezas identificado como Rômulo, foragido desde anteontem à noite.
Iolanda contou que a enteada havia sido avisada que estava jurada de morte por intermédio de uma amiga da esposa do suspeito. Jamila então teria se escondido na casa da vizinha junto com os filhos. ''O Rômulo e mais dois foram lá, viram só as crianças, e quando estavam indo embora um deles viu um pedaço do pé dela. Daí atiraram lá mesmo, na frente dos meninos'', descreveu, acrescentando que depois os garotos foram trancados no banheiro da casa. ''O cara é um covarde. Mas Deus vai fazer justiça'' revoltou-se Fabiano de Novaes Issa, irmão da vítima. O delegado-operacional de Homicídios, Joaquim Melo, esteve na casa do suspeito mas não o encontrou.
''O menino contou que a imagem da mãe dele implorando para não atirarem, falando 'não mata eu não, tenho os filhos para criar', não sai de sua cabeça'', comentou Iolanda. Jamila não era casada, e as crianças vão ficar sob os cuidados da avó. Ela foi sepultada na tarde de ontem no cemitério Parque das Oliveiras.

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