Paulo Pegoraro
De Cascavel
‘‘Alugo barriga. Por 9 meses. Interessados tratar no telefone (...), com Maria’’. O anúncio foi publicado nas edições de segunda-feira e ontem da Folha na seção de classificados. Imediatamente, ‘‘choveram’’ ligações para o telefone (cujo número consta originalmente do anúncio), feitas por mulheres e homens de cidades da região, Norte do Estado, Curitiba e Mato Grosso do Sul. ‘‘Maria’’, que mora em Cascavel, não quer ser identificada publicamente, tem 50 anos, é dona de casa e mãe de dois filhos. Ontem à tarde ela estava definindo detalhes do ‘‘aluguel’’ com um casal interessado.
Maria, nascida em Palmas (95 km a leste de Pato Branco), mora em um bairro na zona sul de Cascavel, com o marido, de 70 anos, assalariado que ganha pouco mais de R$ 1 mil. Ele não se opõe ao ‘‘aluguel’’ da barriga da mulher. Os filhos também aprovam.
‘‘Afinal, é um problema meu, pois o corpo é meu’’, diz Maria, que queria ‘‘uns R$ 10 mil, pelo menos’’, e mais a cobertura de todos os gastos durante a gestação para gerar uma criança para qualquer interessado. ‘‘Farei com muito amor’’, assegura. No final da tarde, ela disse que estava ‘‘fechando o aluguel por R$ 15 mil’’ com um casal ‘‘bem conhecido’’, morador em Cascavel.
‘‘Com o dinheiro, quero pagar contas atrasadas e comprar um carrinho, pois andei a vida inteira a pé ou de ônibus’’. Ao decidir pela publicação do anúncio, Maria não se preocupou com o fato de que a legislação brasileira proíbe alguém receber dinheiro ou outra forma de remuneração para gerar filho para outras pessoas sem remuneração, é permitido apenas a quem tenha laços de parentesco com os ofertadores do espermatozóide e do óvulo fertilizado. Maria estudou até o 5º ano do primário, mas demonstra estar bem inteirada do processo de fertilização ‘‘in vitro’’, do qual quer ser protagonista.
‘‘Vi na televisão’’, relata, acrescentando que o fato de ter 50 anos ‘‘não significa problema, pois tenho boa saúde e quando é para dar complicação na gravidez, dá de qualquer jeito’’. A dona de casa diz que teve dois filhos – uma mulher hoje com 30 anos e um homem com 20, ambos casados – ‘‘de forma maravilhosa. Foi a época que mais me senti bem’’.
Ela diz que a criança ‘‘nascerá de cesariana e irá imediatamente para as mãos de quem fertilizou o óvulo’’. ‘‘Não tenho interesse em ver o bebê, pois afinal não será um filho meu. Mesmo assim, em todo o tempo que o bebê estiver na minha barriga tratarei ele com muito amor’’.
A mulher assegura que nunca pensará em reivindicar direitos sobre a criança. ‘‘Mesmo porque não estou mais em condições de ficar cuidando de um bebezinho’’, justifica. Ela quer assinar um contrato, que obrigue os interessados no aluguel da barriga à cobertura de gastos com exames prévios sobre seu estado de saúde e a seguir os pré-natais para garantir que tudo correrá bem.

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